O TEMPO

O período de unificação de parte da Europa no século I d.C. sob a égide de Roma foi definitivo para a consolidação das rotas comerciais ligadas ao Oriente. A experiência não era nova: Alexandre Magno já havia tentando, séculos antes, estabelecer algo no gênero, mas se politicamente sua tentativa de construir um grande império foi frustrada, os gregos conseguiram criar bases duráveis para a difusão de sua cultura e de seus interesses econômicos.[1] O estabelecimento dos reinos gregos da Bactriana[2] e mesmo a influência de elementos helênicos no reino parto são mostras da importância da cultura grega nestas áreas[3], sem contar as influências que os mesmos legaram à arte indiana nas escolas de Gandhara e Mathura, aspecto que se desenvolveria ainda mais com a solidificação da rota da seda[4], como veremos mais adiante.

No entanto, são os romanos de fato que dão coesão à estrutura do império mediterrâneo: Augusto (I a.C. – I d.C.) estende as fronteiras até o Oriente Médio, estabelece as periferias romanas nessas áreas e reformula o sistema político com o estabelecimento do Principado. O perímetro constituído pela Síria, Palestina e Armênia seria, porém, uma área de atrito constante com a periferia dos partos, instalados na Pérsia.[5]Roma havia conseguido articular um território dividido em províncias cujo trânsito de mercadorias foi favorecido pelo desenvolvimento do comércio, estabilidade política e uso da moeda romana. Assim sendo, a difusão de produtos estrangeiros foi facilitada entre as elites locais, desejosas de reafirmar seu prestígio perante Roma e em suas próprias sociedades de origem.

Apesar do seu desenvolvimento nesta época, este tráfico comercial tem origens anteriores ao Império Romano. Para entendê-las, devemos saber mais sobre a História dos outros três centros existentes no período: o Império Han, a Pártia e Kushana.

A história da Dinastia Han começa no século III a.C., com a deposição da Dinastia Qin (que havia unificado a China) e a ascensão ao trono de Liu Bang, o primeiro Imperador Han. Estabelecidos sobre uma base burocrática administrativamente eficiente (ao menos neste período inicial), os chineses da época se lançaram à conquista de novos territórios, bem como impuseram um controle severo aos ataques dos “bárbaros” do Norte do país, conhecidos como Xiong Nu.[6] As periferias chinesas se estabilizaram nessas áreas, localizadas em torno da Grande Muralha da China, cuja construção já perfazia, desde o tempo dos Qin, uma grande parte da fronteira[7] Em direção ao Sul, os Han chegaram até o Vietnã, tornando-o um protetorado (em torno do século I d.C.). E, em relação ao Oeste, foram variadas as tentativas dessa dinastia de descobrir o que havia além de suas fronteiras com a Índia.

Sob o reinado do já citado Wu Di, no período I a.C., foi enviada uma expedição oficial sob o comando de Zhang Qian para buscar aliados contra os Xiong Nu e verificar as fronteiras do Oeste.[8]Após uma série de aventuras, a embaixada teria entrado em contato com os An Xi (partos, cujo nome em chinês deriva do termo Arsácida, designação que correspondia à dinastia governante). Informações posteriores foram acrescentadas no relato de Ban Gu[9], tais como o nome das capitais partas e de algumas regiões do Ocidente.[10]Tratados foram firmados, tentando assegurar a paz entre estes dois poderosos reinos, cujas relações eram regidas por desconfianças mútuas que aflorariam já no século seguinte, como no caso da expedição do general Ban Chao, que veremos à seguir.[11] O fato é que Wu Di, dispondo das informações colhidas por seus emissários, decidiu organizar um sistema comercial controlado pela burocracia imperial que daria origem, finalmente, à rota da seda. Zhang Qian[12] havia constatado que os produtos chineses eram muito apreciados nas rotas comerciais percorridas; e o imperador concluiu disso que seria excelente tanto para política como para economia da China Han que seus artigos fossem distribuídos de forma ordenada por toda a Ásia central e mesmo por via marítima[13]. Esta época marcou o início da venda e do presenteamento maciço de seda e de mercadorias chinesas para além das fronteiras, alcançando até o Ocidente.[14] Este processo passou também por uma importante necessidade de definir as fronteiras chinesas a Oeste. Os Han começaram a fortificar as áreas onde estavam presentes ao longo da rota da seda, chegando até as fronteiras dos kushans, instalados no norte da Índia, hoje em áreas correspondentes ao Paquistão e ao Afeganistão.[15] Esta ponte sobre o Norte da Índia constituiu-se num território que alternava entre ser uma periferia e uma semi-periferia endógena ao território chinês. No século I d.C., por exemplo, o supracitado general Ban Chao foi enviado para debelar uma revolta no território do Turquestão, e existem indícios de que a mesma teria recebido auxílio dos partos.[16] Ora, esta localidade, que os chineses haviam perdido durante a crise do período Wang Mang (2-22 d.C.), tinha fronteiras com os kushans, com a Pártia ou, no máximo, com algum dos pequenos reinos de Fergana ou Bactriana, o que quer dizer que a fronteira entre as periferias desses Estados era bastante flexível e variável.

Vê-se por estes dados que os Han tiveram, portanto, muitas oportunidades para desenvolver seu sistema comercial, e tentaram aproveitá-las ao máximo. Uma breve interrupção na sua História política, representada pelo governo do usurpador Wang Mang[17], não alterou suas condições básicas de existência, e no segundo período de vida desta dinastia (os Han posteriores, ou Hou Han), vemos, mesmo, o crescimento ainda maior das atividades de troca, demonstrado tanto pelo fortalecimento das associações e casas comerciais[18] quanto pelo movimento administrativo efetuado nas fronteiras pela burocracia e pelo exército.[19]Essa época marcou, aliás, uma diminuição da forte influência que o Estado tinha sobre a economia desde a época de Wu Di[20], até que, no século III d.C., após uma série de crises sociais provocadas por períodos de escassez, fome, colheitas ruins e administração ineficiente[21], a dinastia Han enfraqueceu-se em definitivo, até que a casa imperial foi derrubada e o “mandato do céu”[22] saiu de suas mãos, dando origem a um período de divisão interna do território.

Se considerarmos a fronteira chinesa como algo móvel em direção ao Oeste, devemos nos perguntar, então, como se organizava seu principal vizinho, o reino Kushana, que aparentemente se tornaria um satélite chinês no período dos séculos II-III d.C.

Na verdade, a História dos kushans começa com a “ajuda” indireta dos chineses. O povo que teria dado origem a este reino era conhecido pelos Han como Yueh Zhi, e no século I a.C. ele teria sido empurrado por guerras violentas promovidas pelos Xiong Nu até o Norte da Índia.[23] O movimento que aí ocorreu teria como causa justamente os chineses, que haviam sido vitoriosos em suas lutas contra os Xiong Nu e os haviam alijado de seus territórios no norte da China. Este dominó lançou os Yueh Zhi contra a enfraquecida dinastia dos Shaka, instalada no território dos atuais Paquistão e Afeganistão. Finalmente, no século I d.C., Kujula Kadphises[24] teria fundado a dinastia Kushan, conhecida pelos chineses como Kuei Shang, ou Kuei Shuang, que durante algum tempo ainda lutou para se estabelecer no território contra um reino satélite da Pártia, constituído com os restos da dinastia Shaka e vencido, por fim, no mesmo século. No período dos séculos I e II d.C., a dinastia Kushana teria conhecido seu ápice sob o governo de Kanishka, patrono das artes e religiões.[25] Não são raras as citações sobre os mesmos no Shi Ji e no Han shu. Mas, já no final do século II, suas estruturas políticas se desagregaram: o que não foi tomado pelos sassânidas no século III terminou por sobreviver, precariamente, como Estado dependente do poder chinês. Há também um sério problema envolvendo a cronologia do reis kushans, de difícil solução pela escassez de informação sobre o assunto.[26] Enquanto constituíam, porém, um grande reino, os kushans conseguiram significativos recursos controlando as áreas por onde passava a rota da seda em seu território. Isso fica patente pelos depósitos alfandegários encontrados por Wheeler[27], com tesouros de origem ocidental e oriental. Além disso, as rotas descritas pelo Périplo[28] aportavam em território kushan, o que permitia a esse povo um certo controle sobre o tráfego marítimo. Tal posição permitiu que os kushans fossem bem conhecidos não só pelos chineses como também pelos romanos.[29] Augusto, na primeira parte no Res Gestae, comenta sobre a visita de várias embaixadas estrangeiras, entre elas a dos indianos.[30]Dion fala também sobre uma possível embaixada indiana a Trajano[31], e a Índia aparece nitidamente nas primeiras elaborações geográficas de Pompônio, Estrabão e Ptolomeu.[32]Thorley cita ainda a possibilidade de Adriano e Antonino Pio terem recebido visitas do gênero.[33]Por fim, os romanos parecem conhecer alguma coisa sobre a cultura indiana, como aparece na obra de Filostrato, a Vida de Apolônio de Tiana. [34]

Vemos, assim, que os kushans se estabeleceram, por conseguinte (e enquanto puderam), como um centro político forte, disposto a dar continuidade ao sistema de tráfico comercial elaborado pelos chineses, do qual tiravam significativo partido, sendo intermediários amigáveis tanto dos Han quanto de Roma.

Os motivos pelos quais sua estrutura política iria ruir no século III d.C. ainda são uma grande incógnita para a maior parte dos historiadores. Antes da diminuição do fluxo de mercadorias que ocorreria partindo da China (em virtude da queda da Dinastia Han, o que interferiria no comércio, uma importante fonte de recursos para os kushans), vimos que os mesmos, no século II, já sofriam interferências políticas nos seus domínios. De imediato, só podemos analisar brevemente sua participação neste sistema mundial no período indicado, deixando um aprofundamento maior na questão para outra ocasião.

O reino Kushana tinha suas fronteiras delimitadas por um outro Estado bastante poderoso na época, a Pártia. Esta potência, que rivalizava com Roma em grandeza e força, teve seu ciclo de existência localizado no período 247 a.C – 228 d.C. (ou seja, nos séculos III a.C. a III d.C., num movimento contextual bem semelhante ao da China e próximo das datas da expansão romana e kushan)[35] e sua economia dependia em muito, também, das rotas comerciais que passavam por seu território[36].

A história dos partos surge no processo de desagregação do domínio selêucida na Ásia central. Fragmentados por revoltas e guerras, que culminam com a independência de algumas províncias[37], os territórios dos gregos se achavam fragilizados e grupos nômades vindos das estepes se aproveitaram do momento para retirar o seu quinhão. Destes, os mais fortes foram os partos, que conquistaram as regiões próximas do Cáspio em 249 a.C. e fundaram sua dinastia em 247 a.C. sob a liderança de Arsaces, que deu nome à mesma (Arsácidas).[38] Não demoraram a solapar o que restava dos domínios selêucidas, e um poderoso soberano parto, Mitrídates I (171-138 a.C.), finalizou esta carreira de vitórias conquistando a Pérsia e a Babilônia.[39] Esta onda ecoou em territórios distantes: em 106 a.C. (no período da segunda viagem de Zhang Qian), os chineses enviaram uma embaixada a Mitrídates II em reconhecimento de sua força.[40]Manobra hábil dos chineses: eles haviam buscado, anteriormente, apoio nos reinos bactrianos[41] contra os Xiong Nu, mas pressentindo as mudanças no panorama político, aproveitaram a oportunidade e distribuíram mais presentes para os partos do que para os outros.[42]

O reino parto, porém, praticava uma política agressiva de controle nas fronteiras e nas rotas comerciais, bem como na disputa de território, o que terminou por colocá-lo em situações de conflito extremo e de delicado relacionamento internacional com as potências kushan e chinesa, mas principalmente com Roma.

O conflito entre Pártia e Roma tornar-se-ia uma história de séculos, em disputa, sempre, pelas regiões da Síria (tomada pelos romanos aos selêucidas), Armênia e demais territórios do Oriente Médio. Augusto[43] ficou famoso por recuperar as insígnias romanas perdidas por Crasso. Já Trajano[44] foi, provavelmente, o mais bem sucedido de todos os soberanos romanos na região, estendendo ao máximo as fronteiras imperiais sobre a área: mas seria justamente Marco Aurélio, o “imperador filósofo”, que deixaria seu nome registrado nos documentos chineses como An Tun[45], representado por uma embaixada (cujo caráter duvidoso veremos adiante) que se utilizava do prestígio de seu nome após uma tremenda vitória infligida aos partos.

Este, no entanto, é o lado vitorioso romano: se Roma não tivesse disputado tantas vezes suas províncias com as forças partas, não haveria tantos heróis e conquistadores na sua História. Mas o fato é que os partos desequilibravam o jogo das relações internacionais da época com suas constantes manifestações de força. Já no século I d.C., quando Ban Chao reconquistou o Turquestão[46], supõe-se que ele teria recebido informações sobre a presença de emissários e forças partas (ou gregas) no local, terminando por enfrentá-las e vencê-las.[47] O rei da Armênia também buscou o apoio da distante dinastia Han para seu reino, diante desta instabilidade política, enviando embaixadas à corte chinesa.[48]

Diante destes acontecimentos, vemos que os partos não se sujeitariam facilmente à ingerência de qualquer outro governo em seu território; e na sua política externa, o tom conciliador vinha acompanhado de interesses econômicos e políticos bem definidos. Mas, por isso mesmo, devemos crer que, quando possível, este mesmo reino, cuja forte interação com o fluxo comercial internacional era patente, deveria buscar formas de administrar suas relações políticas nas fronteiras, tanto com as periferias romanas quanto com seus vizinhos orientais, como forma indispensável de sobrevivência. Daí porque vemos esta sociedade encarando o combate aos nômades orientais[49]como uma “tarefa” e cultivando a cultura grega como forma de arte e de civilização “superior”.[50] Ao partos tinham três capitais arquitetonicamente desenvolvidas, chamadas Ecbatana, Hecatompylos e Ctésifon[51] , que também possuíam uma forte atuação comercial. Por fim, esta sociedade bem estruturada só seria desarticulada, no século III, com a chegada de outro povo vindo dos planaltos iranianos, os sassânidas, cuja cavalaria vitoriosa destruiria os governantes partos[52] e os substituiria na ameaça aos romanos. Constituídos por um grupo de etnia persa, os sassânidas entram neste final de cena, liderados pelo seu rei, Ardashir[53], para constituir um novo reino no Médio Oriente e assumir o controle das rotas comerciais para o Ocidente. Este grupo, porém, foi mais hábil na administração de seus conflitos externos, e, apesar de sua periculosidade e eficácia na guerra contra os romanos, soube conciliar o maior tempo possível a existência pacífica de suas periferias com Roma e com a Índia, esta, já no final do século III, fragmentada em diversos reinos.

Por este quadro observamos que, no século I d.C., quando uma crescente e razoável estabilidade surgiu nas fronteiras, o comércio pode ocorrer com maior fluidez entre os centros hegemônicos. Devemos agora proceder à análise das rotas marítimas e terrestres nele utilizadas, e de como estas serviam na articulação das periferias e na formação do sistema mundial.



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[1] Cf. JAROCKA, M. L. “As relações entre a Índia e a Grécia antes e depois de Alexandre”. In Textos de Cultura Clássica N. 16 Rio de Janeiro: SBEC, 1991 e LÉVEQUE, P. O Mundo Helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987 p. 190-200.

[2] Reinos cujos territórios abrangiam partes correspondentes, atualmente, ao Norte da Índia, Paquistão e Afeganistão. Sobreviveram basicamente até o final do século II a.C., quando começaram a ser desalojados pelos Kushans. Dois livros interessantes que analisam as influências gregas na Ásia central são de HOLT, F. Alexander the Great and Bactria New York, 1995 (s/ed.) e Thundering Zeus Berkeley: UCP, 1999.

[3] LEVEQUE, P., op. cit., p.199-200.

[4] Para ver mais sobre a arte dessas escolas, ver FOUCHER, A. L’art greco-bouddhique du Gandhara. Paris: Imprimerie National, 1905; COOMARASWAMY, A. A History of Indian and Indonesian art. New York: Dover, 1985 e os trabalhos mais recentes de HUNTINGTON, S. The art of Ancient India. New York: Weatherhill, 1985 que reconsideram uma série de conceitos que envolvem as formulações teóricas sobre os estilos presentes nessas escolas.

[5] De fato, são muitos os documentos históricos romanos a partir desta época que contém alguma referência aos partos, com os quais são travadas guerras constantes pelo controle dos pontos axiais do comércio existentes no Oriente Próximo. Utilizaremos aqui aqueles que julgamos mais pertinentes ao nosso trabalho.

[6] Um bom resumo sobre este momento histórico pode ser visto em TRAUZETEL, R. & FRANKE, H. El Imperio Chino. Madrid: Siglo XXI, 1973 p.65-109 e também MORTON, W., op. cit., p.78-83.

[7] Shi ji, LXXXVIII.

[8] Shi Ji, CXXIII.

[9] Han shu, XCVI.

[10] A Síria, por exemplo, era conhecida pelo nome de Li kan; Pathurva, um dos nomes associados a Hekatompylos, uma das capitais partas, era chamada ora de Ban tou, ora, de Dangham; isso sem contar a região da Babilônia, que era Diao Chi,entre vários outros que veremos ao longo do trabalho.

[11] Hou Han shu, LXXXVI-LXXXVIII.

[12] Shi ji, CXXIII.

[13] A Dinastia Han se viu incrivelmente facilitada na sua tarefa de comerciar dentro e fora de suas fronteiras graças à política da grande unificação imposta durante a Dinastia Qin. Qin Shi Huang Di, o primeiro imperador Qin (III a.C.), unificou as moedas, os pesos, as medidas, a escrita e as taxações. Por conta disso, como o sistema chinês abrangia um grande território, as áreas periféricas terminaram por adotar parte das regras chinesas, visando facilitar seu câmbio com o Império Celeste.

[14] É o caso das cortinas de seda de Julio César, citado em Dion, XLIII, 24 APUD THORLEY, J. “The silk trade between China and Roman empire”. Op. cit., p. 71 Alguns sinólogos costumam chamar esta época de Pax Sinica, em analogia a Pax Romana.

[15] Mapa Han 1, em anexo.

[16] Hou Han shu, LXVI-LXVIII.

[17] TRAUZETEL, F., op. cit., p. 65-109 e também MONTENEGRO, A. Historia de la China antigua. Madrid : Istmo, 1974 p. 291-339.

[18] GERNET, J., op. cit., p.129-135.

[19] GERNET, J., op. cit., p.122-123, mas o principal estudo sobre o assunto é o de LOEWE, M. Records of Han administration, 1967.

[20] Wu Di estabeleceu o controle estatal sobre várias áreas produtivas, além do controle fiscal rígido, determinando também a cunhagem de uma moeda para facilitar o comércio. Alguns desses monopólios não iam, porém, ficar sob controle estatal constante, mas terminariam por serem negociados ocasionalmente, segundo a vontade de cada soberano, com a iniciativa privada, alternando portanto, uma condição ora imperial, ora privada, em épocas diversas da história Han. TRAUZETEL, F., op. cit., p. 83. Veremos adiante, porém, que a interferência estatal na economia seria sempre forte.

[21] Para um estudo detalhado dessas crises, ver LOEWE, M. Crisis and conflict in Han dynasty. London: George Allen, 1974.

[22] Após a época da dinastia Zhou, os Imperadores começaram a governar tendo por base a crença de que recebiam um Mandato do Céu, ou seja, um período estabelecido pelas forças cósmicas e pelos deuses, no qual recebiam o encargo de administrar a vida na terra. A perda deste mandato significava a ruína de uma dinastia, provavelmente, segundo o imaginário político chinês, porque aqueles que executaram o poder não o teriam feito de forma correta, incorrendo em crimes contra o povo e contra a natureza.

[23] THORLEY, J., op. cit., p.72 – este ponto é mais bem detalhado no livro de THAPAR, R. History of India. London: Harmondsworth, 1966 p. 92-109 e DANIELOU, A. Histoire de L’Inde. Paris: Fayard, 1979 p. 141-151. Um estudo específico pode ser encontrado em KOSHELENKO, G. The Yue Chi and the migrations. New York: UNESCO, 1994.

[24] Em chinês Qü Chü Queh APUD GROUSSET, R. The empire of steppes. New York: Barnes and Nobles, 1999 p.32.

[25] GERNET, J., op. cit., p.129-135.

[26] THORLEY, J. “The Roman empire and the kushans”. Op. cit., p.190.

[27] WHEELER, M., op. cit., p. 164-173; 183-214

[28] O texto do Periplus indica vários pontos de trocas na costa da Índia. APUD FREZOULS, E.., op. cit., p.322 e THORLEY, J., op. cit., p.182.

[29] THORLEY, J., op. cit., p. 181-190; CIMINO, R., “General references from classical authors” op. cit., p. 84-87. Sobre as fontes, ver também COEDES, G. Textes d’auters grecs et latins relatifs a l’extreme Orient. New York: Ares Publishers, 1977.

[30] Res Gestae, XXXIII. Ver também CIMINO, R. “Indian Ambassadors at the Roman Court” op. cit., p. 17-24.

[31] Dion LXVIII, 15 APUD THORLEY, J., op. cit., p.184.

[32] Ver os Mapas em anexo.

[33] THORLEY, J., op. cit., p. 186.

[34] Um artigo interessante sobre o assunto foi publicado por HANUS, P. “Apollonios de Tyane et la tradition du “theios aner” in Dialogues de Histoire Ancienne. Paris: Presses Universites Franc-Comtoises, 1988 N. 24/1 p. 200-231.

[35] FRYE, R. The history of the ancient Iran. München: C.H.B. Verlagbuchandlung, 1984 p. 209; 360.

[36] COLLEDGE, M. The Partians. London: Thames and Hudson, 1967 p.22-35.

[37] Resultando daí a formação dos reinos greco-bactrianos.

[38] LEVEQUE, P., op. cit., p. 43.

[39] LEVEQUE, P., Op. cit., p. 43-44.

[40] As datas oscilam neste ponto entre 106-91 a.C. No Shi Ji, Cap. CXXIII, temos uma segunda embaixada de data não precisada para os An Xi. HIRTH, H. China and the Roman Orient: researches into their Ancient and Medieval relations as represented in old chinese records. Shangai & Hong Kong, 1885 p. 35-96 situa-a em 91 a.C.; GROUSSET, R., op. cit., p. 30-34 e LEVEQUE, P., op. cit., p. 200 situam-na em 106 a.C. A confusão ocorre por um motivo simples: em 115-105 a.C., temos a segunda viagem de Zhang Qian, o que torna a embaixada de 91 a.C. um empreendimento desvinculado de sua figura.

[41] Por eles nomeados como “Da Yuan”. Shi Ji, CXXIII.

[42] Shi Ji, CXXIII.

[43] Augustus – 27 a.C. – 14 d.C.

[44] Trajano – 97d.C. – 117 d.C. Cf. KENNEDY, D. Rome’s desert frontier. Austin: UTP, 1990 p.34-35.

[45] Hou Han Shu, LXXXVIII ; Wei Lio (sem numeração) e Liang shu, LIV.

[46] Hou Han Shu, LXXXVI.

[47] A dúvida que reside nesta questão é a seguinte: GROUSSET, R., op. cit., p. 31 cita uma versão, aceita, segundo o qual o território em questão ainda seria dominado pelos gregos no momento da invasão chinesa. Assim sendo, é difícil esclarecer se esta era uma possessão legítima chinesa, tomada aos bactrianos, ou se os “gregos” em questão poderiam ser os partos. Para avaliar o problema, o general Ban Chao decidiu enviar seu emissário Gan Yin para viajar ao Ocidente, conhecer os territórios e, se possível, contactar os romanos, o que nos parece uma indicação clara de que a desconfiança entre chineses e partos cresceu, de qualquer forma, naquela época. O relato da viagem de Gan Yin, contido no Hou Han Shu, LXXXVI – LXXXVIIII transmite a impressão - dos chineses - de que ele teria sido dissuadido de continuar sua viagem em território parto, o que nos permite confirmar que as relações entre a China e a Pártia se encontravam, realmente, num estado bastante delicado.

[48] Hou Han shu, LXXXVI O rei da Shan (Armênia) era conhecido pelos chineses como Yung yu tiao e ao que parece ele teria enviado duas embaixadas, inclusive com intérpretes que sabiam falar chinês; uma durante o reinado de Ho Di (89 d.C. - 106 d.C.) e outra durante o governo de Yung Ning, em 120 d.C.

[49] GROUSSET, R., op. cit., p.31.

[50] LEVEQUE, P., op. cit., p.200 afirma que os partos podem ser considerados um reino “filo-heleno”, ou seja, uma conjugação dos elementos anteriores da cultura nômade parta com manifestações aquemênidas persas e, principalmente, com elementos advindos da cultura grega. Esta indicação parece ser confirmada pela análise da cultura material, como aparece, por exemplo, no livro de COLLEDGE, M. The partians. London: Thames and Hudson, 1967.

[51] Em chinês, Hamadham (Ecbatana), Dangham ou Ban tou (Hekatompylos). Ecbatana aparece também, no Han Shu, como Ukaman e Ctésifon como Si Pan. Os chineses não tinham grandes problemas para variar os nomes ocasionalmente.

[52] A queda da Pártia ocorreu em 228 d.C.

[53] Karnamik I Ardashir, I.