INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é investigar como foi construído, entre os séculos I ao III d.C., um processo de relação e interação entre dois grandes impérios antigos, Roma e a China Han, centros geradores de poder capazes de organizar um sistema de comunicação e comércio que atravessava toda a Ásia e que se manifestava plenamente na estruturação de suas economias e sociedades, configurando de uma forma completamente nova as relações políticas que abrangiam diversas sociedades da Antigüidade.

Esta relação teve alguns antecedentes históricos, como veremos adiante, mas ela se consolida de fato na época que buscamos analisar. Tal fato se deve, provavelmente, a estabilidade política e econômica que se desenvolve no período, quando ambas as civilizações se achavam consolidadas em suas forças. É neste momento, por exemplo, que vamos ter o desenvolvimento completo da rota da seda, que foi oficialmente organizada e controlada algumas décadas antes pelo imperador chinês da dinastia Han Wu Di[1]. Mas o que caracterizou essa interação, e porque ela ocorria? Como ela se deu?

As respostas podem ser encontradas na documentação antiga, mediante uma dissecação apurada: em variados trechos vemos aparecer, tanto nas fontes romanas quanto nas chinesas, menções sobre o outro, aquele que durante um bom tempo foi negligenciado pelos tradicionais estudos ocidentais. Este outro é o estrangeiro, aquele cujo povo envia ou recebe gente e produtos, que se destaca pela sua diferença, e que por ela fica sendo conhecido. No caso dos romanos, vários são os povos estrangeiros que estão além do limes; e os chineses são um deles. Igualmente, veremos nos documentos orientais menções sobre os indianos, os partos e aqueles que nos interessam tanto quanto interessavam aos antigos: os romanos! Aparentemente todas estas sociedades já se conheciam de alguma forma, mas este tópico não parece ter despertado grande interesse histórico para a maior parte dos especialistas até então.

Para explicar essa relação - e para retirá-la do terreno do acaso - temos que lançar mão, porém, de algumas indagações fundamentais, já citadas anteriormente: como se dava essa interação? Em que nível ocorria? Qual sua função política e econômica? Como se desdobrava no meio social? Vamos responder uma a uma estas questões.

Inicialmente, temos de reconhecer que o processo de articulação entre as sociedades da Antigüidade aqui envolvidas se dava através do comércio[2], tendo em vista que não existiam fronteiras comuns entre algumas delas.[3] Este comércio internacional centrava-se no fluxo de produtos estrangeiros de luxo e de alto valor, utilizados em todas as partes do mundo antigo pelas elites locais para demonstrar seu prestígio e sua força econômica perante suas próprias sociedades (e no caso de Roma e China, também, perante as outras). Neste ponto somos obrigados a contestar a visão de M. Finley, que acreditava ser o papel do comércio secundário no mundo clássico.[4] Com o aumento dos empreendimentos arqueológicos neste campo, tem-se mostrado que a circulação de mercadorias na Antigüidade era muito maior do que aquela apresentada unicamente pelos mercados locais, o que contesta a visão ao qual se apegava este autor.[5]

Esta relação comercial cumpria, como afirmamos, uma função indispensável às sociedades da época: reproduzir as desigualdades internas e externas, tanto através do controle econômico da atividade quanto pela demonstração de prestígio e poder, manifestada pela utilização de mercadorias exóticas e de luxo. O impressionante nessa relação será observar que, em quase todas as partes desse mundo antigo, tal prática se reproduzia, e muitas vezes mediante a utilização de alguns produtos específicos, tais como a seda chinesa.

Existiam algumas dificuldades nas estruturas deste canal de comunicação: sendo o comércio feito por terra[6], pela rota da seda, ou por via marítima, através do oceano Índico[7] , os agentes componentes deste fluxo (mercadores, produtos, informações) se viam obrigados a passar por territórios cuja ordenação e estabilidade política eram variáveis e não necessariamente articuladas aos “interesses sino-romanos”: a Pártia, por exemplo, conseguiu a inimizade de ambos os impérios, tantas foram suas tentativas de controlar este fluxo, enquanto os kushans do norte da Índia se mostraram menos agressivos e mais diplomáticos, mandando embaixadas tanto para o Ocidente quanto para o Oriente, embora no século II já estivessem bem enfraquecidos a ponto de aceitar uma presença chinesa mais ativa no seu território. E podemos, igualmente, falar em interesse sino-romano? Talvez sim: em pequenos detalhes da documentação, observaremos que, por vezes, os literatos chineses projetaram em Roma uma nação ideal; e os romanos viram nos distantes Sericos uma potência tão forte como a sua[8], o que nos leva a pensar que em alguns casos a curiosidade, ajudada pela distância, criava o desejo do mútuo conhecimento. Mas este desejo aparece sempre ligado aos objetos que despertam o fascínio um do outro: as mercadorias de luxo.

Observamos, portanto, que o comércio é a grande via desta relação: mas como faremos para compreender o seu papel de integração entre as mais diversas sociedades que compunham o mundo antigo? Compartilhando da visão relativa à teoria Centro - Periferia, entendemos que houve a construção de uma relação hierárquica mutável entre as regiões submetidas politicamente ao controle dos centros de poder (Roma e China), que interagiam neste processo como geradoras de excedentes negociáveis e áreas de consumo, além de atuarem necessariamente como terreno de fronteira. Esse território, a Periferia, era o lugar de encontro das rotas comerciais, das feiras, dos povos diferentes: se tomarmos o Império romano, por exemplo, veremos que uma destas áreas mais importantes foi a do Oriente Próximo, palco de um intenso movimento de luta pelo controle dos nós comerciais que atravessavam esta região em torno dos séculos I d.C. ao III d.C.

A relação de desigualdade e dependência gerada pela construção desses impérios em diversas áreas sistematizou a organização do modelo Centro - Periferia (para a Antigüidade) de acordo, portanto, com uma série de pressupostos razoavelmente definidos que condicionavam o funcionamento da política e da economia das sociedades a uma teia de relações complexas e de dinâmica internacional. Veremos, mais adiante, a estruturação destes pontos.

As considerações que faremos, no entanto, nos permitem supor que a noção de integração entre as sociedades da Antigüidade estaria vinculada não somente ao interesse político, mas também, às possibilidades geradas por um sistema de poder que era capaz de unir as regiões periféricas numa mesma estrutura de funcionamento, o que terminava por beneficiar, algumas vezes, áreas dominadas que se viam favorecidas pela entrada de técnicas e investimento romano e chinês. Não devemos pensar, no entanto, que o processo de dominação é unidirecional: como bem observa Kardoulias[9], por vezes as periferias podiam negociar, em certo nível, sua participação no sistema colonial. Mas ainda assim estariam sempre, em última instância, vinculadas aos interesses dos Centros geradores de poder; e as culturas destas metrópoles acabariam sendo, assim, o fator determinante de organização das relações de exploração, como veremos adiante.



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[1] O Imperador Wu Di, de 141-87 a.C. foi considerado o “inaugurador oficial” da rota da seda por ser um dos primeiros soberanos a investir na construção de uma infra-estrutura para estas vias comerciais, anteriormente desordenadas e espontâneas. Para saber mais sobre este Governante, pode-se consultar suas biografias no Shi ji de Sima Qian e no Han Shu de Ban Gu (detalhados adiante, como veremos) ou ler um resumo de sua vida no livro de PALUDAN, A. Chronicle of the Chinese Emperors. London: Thames and Hudson, 2000.

[2] Ver a conceituação sobre comércio adiante, na parte de Teoria e Metodologia.

[3] É o caso do império romano e da China, que não possuíam fronteiras comuns; no entanto, veremos que os limites geográficos não impediram um contato profundo entre as duas civilizações.

[4] FINLEY, M. Economia no Mundo Antigo. Lisboa: Afrontamento, 1973.

[5] Algumas críticas ao modelo de Economia Antiga proposto por FINLEY já haviam sido feitas por outros autores, como em HOPIKNS, K. Conqueros and slaves. Cambridge: Cambridge University Press, 1978 e GREENE, K. The archaeology of the roman economy. London, Batsford, 1986. Em geral, estas abordagens centram-se no papel abrangente das atividades econômicas na sociedade romana, que teriam alcançado um razoável crescimento nos períodos iniciais do Império. Capaz de gerar excedentes negociáveis, esta estrutura produtiva estaria longe de possuir, por conseguinte, o caráter restritivo que FINLEY havia lhes designado.

[6] Sobre as rotas terrestres, ver os trabalhos de THORLEY, F. “The silk trade between China and roman empire.” Greece & Rome. N. 2 Oxford: Oxford University press, 1971; “The roman empire and the kushans.” Greece & Rome. N. 1 Oxford: Oxford University press, 1979; ANQUETIL, J. Routes de la soie. Paris: JCL, 1992; YONG, M. “A rota da seda” in Correio da Unesco N.8 Brasil, 1984; MAZAHERY, A. “La origine chinoise de la balance romaine.” Analles. 15o ano, N.5 Paris: Armand Colin, 1960 e La route de soie. Paris: Papyrus, 1983; YU, Y.S. Trade and expansion in Han China. Los Angles: Berkeley, 1967 e JANVIER, Y. “Rome et l’orient lointain: les problemes des seres”. Ktema N.9 Strasbourg: V.S.H, 1984.

[7] Sobre as rotas marítimas, ver FREZOULS, E. “Quelque einsengments de periple de la mere Eryhtres”. Ktema. N.9 Strasbourg: V.S.H, 1984; TANG, R. & COLOMBEL, P. “A Rota marítima da seda”. Correio da Unesco. N.8 Brasil, 1984; TCHERNIA, A. “Moussouns et monnaies: les voies de commerce entre le monde gréco-romaine et l’Inde”. Analles. N.5 Paris: Armand Colin, 1995; VOLLMER, J. Silk Roads, China ships. Toronto: Ontario Museum, 1984; CIMINO, R. Rome and India. New Delhi: South Asia Books, 1995; CIMINO, R. et alli Ancient Rome and India: Commercial and cultural contacts between the roman world and India. New Delhi: Munshiram Manoharial, 1996 e MU QI, C. The silk road, past and present. Beijing: Foreign Language Press, 1989.

[8] Uma análise deste aspecto está no texto de JANVIER, Y., op. cit. , p. 262-263.

[9]KARDOULIAS, P.N. “Multiple Levels in the Aegean Bronze Age World-system” in KARDOULIAS, P. N. World System theory and practice: leadership, production and exchange. New York: Rowman & Littelfield, 1999 p.180-200 aborda estes conceitos sobre sistema mundial e a relação centro/periferia, sendo que suas considerações parecem ser válidas igualmente para o nosso trabalho.