HISTORIOGRAFIA

Observemos, neste momento, de que forma foi elaborada a discussão historiográfica a respeito do tema.

Podemos dividir em duas partes o desenvolvimento dos estudos em torno das relações Roma e China na Antigüidade. Iniciemos pelas questões teórico - metodológicas.

Nos últimos anos, com o surgimento gradual de novas descobertas arqueológicas, alguns setores da História começaram a dedicar mais atenção ao estudo dos contatos internacionais em períodos recuados no tempo. A investigação desses achados levou parte dos especialistas envolvidos a duvidar da compartimentação histórica que atribuímos às civilizações mundiais e de sua capacidade cultural e produtiva independente e autóctone, tendo em vista que o nível de trocas entre os setores produtivos da sociedade deixava parecer que existiriam contatos profusos entre os mais variados povos desde períodos remotos. Isto não tirava a originalidade dos mesmos, mas forçava os pesquisadores a analisar mais profundamente em que condições temporais e materiais certos processos históricos realizaram-se, e qual a sua relação com outros fenômenos análogos.

O resultado do desenvolvimento desse ponto de vista foi a construção do já citado modelo Centro/Periferia, articulado à idéia de ciclos históricos nos quais a presença de Centros hegemônicos organizaria a estrutura política mundial (ou o sistema mundial), no contexto de práticas colonialistas de diversos níveis e tipos diferenciados.

Dois grandes representantes dessa linha são I. Wallerstein e André Gunder Frank, que construíram uma significativa parte dos modelos analíticos utilizados pelos adeptos da teoria Centro/Periferia[1]. A idéia de sistema mundial que iremos utilizar, porém, é a da Ekholm e Friedman[2] em conjunto com as proposições de Rowlands[3], que se encarregou de adaptar esse quadro teórico-metodológico para o contexto da Antigüidade, dando condições para que os sistemas imperiais clássicos e o panorama das relações internacionais na época pudessem ser entendidos à luz desta linha de trabalho.

Assim sendo, a utilização desse modelo deu-nos condição de articular, de maneira mais efetiva, as informações disponíveis a respeito do sistema Roma – China que já haviam sido estudadas no campo historiográfico e literário.

De fato, algumas pesquisas em torno do assunto tinham sido feitas, mas nenhuma de forma plena. Hirth, autor inglês do século XIX identificou na documentação chinesa referências aos romanos, mas não se preocupou em entender a dinâmica dessa relação, tal como Filliozat, que na França, já investigava no início do XX algo sobre as relações entre Ocidente e Oriente na literatura clássica greco - romana.[4] Nesta mesma época, o arqueólogo Aurel Stein percorreu a rota da seda e fez inúmeras descobertas significativas, algumas até mesmo ligadas à questão Oriente - Ocidente, mas sem formular nenhum comentário mais profundo sobre o assunto.[5] Em 1939, F. Teggart[6] publicou seu livro, no qual estabelecia uma correlação entre o Império romano e o Império chinês, tornando-se um marco neste campo de estudo. Tais pesquisas, no entanto, caíram no vácuo até a década de 50 do século XX, quando outro inglês, Sir Mortimer Wheeler[7], arqueólogo especializado na Índia e no Oriente, levantou alguns dados interessantes sobre a questão, principalmente em seu livro Rome beyond the Imperial frontiers, no qual abordava o relacionamento do limes romano com forças externas. Citando o comércio que existiria entre as nações do Oriente com Roma, este autor retomou a instigante teoria de Teggart[8] sobre a desestruturação do Império Ocidental, cujo fundamento seria uma interrupção abrupta das rotas que abasteciam a Europa através do Oriente Médio, e que se ligariam diretamente à rota da seda.[9]Um aprofundamento maior nessa visão poderia nos fornecer indicações para começar a dar forma à questão do sistema mundial, mas a preocupação maior de M. Wheeler não era essa e ele não desenvolveu tal abordagem, deixando para outros autores o resgate desta proposta.

Nas décadas de 70 e 80 tivemos ainda outros pesquisadores em torno do assunto, tais como Thorley[10], estudioso da rota da seda e das relações entre Roma e Índia, por exemplo. Na mesma linha, encontraremos na França Mazahery.[11] Mais recentemente, outros três autores franceses e belgas, Frezouls, Janvier e Tchernia[12], concretizaram um grande volume de informação a respeito dessas possíveis relações, mas careciam justamente de um modelo teórico-metodológico que pudesse pôr ordem em seus achados de maneira a criar uma concepção mais abrangente e explicativa da estrutura de funcionamento destes contatos Oriente – Ocidente. Podemos adicionar ainda os trabalhos pioneiros de Cimino[13], Xinru[14] e daqueles que estudaram especificamente a questão da rota da seda[15].

Por conseguinte, é pela fusão destes dados com as propostas apresentadas pelas teorias de Centro/Periferia e Sistema Mundial[16] que podemos finalmente construir nossas hipóteses, e daí inferir um modelo apropriado para respondê-las.

Devemos, porém, considerar um ponto importante neste nosso trabalho. Se fizermos uma análise breve dos autores que abordam a questão das relações culturais entre as civilizações antigas, veremos que existem, em alguns, a tendência em caracterizar um processo de difusão cultural tendo por base a civilização que o próprio pesquisador analisa. Assim, é comum ver sinólogos que dizem que “os romanos quase ignoravam os chineses, enquanto a China conhecia razoavelmente o Ocidente”[17], enquanto alguns classicistas simplesmente olham o mundo antigo girando em torno de Roma e Grécia.[18] Nossa posição, diante destas análises, é que cada autor teve um processo de formação específico, o que por vezes não nos os possibilitou de fazerem estudos mais abrangentes sobre certos casos (e o que, por vezes, também não eram seus objetivos diretos); em segundo lugar, o processo de trocas culturais acabou por formar um conjunto sobre o qual as civilizações tinham influência, mas não controle direto. Assim sendo, detectar a origem de certos valores ou conceitos é interessante, mas devemos ter cuidado ao analisa-las, evitando criar preconceitos ou processos de hierarquia cultural errôneos (tais como acreditar que a China era “dona” da rota da seda, excluindo a participação dos outros centros).



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[1] WALLERSTEIN, I. The modern world system: capitalist agriculture and the origins of the European world – economy in the sixteenth century. New York: Academic Press, 1974. Ver também FRANK, A. G. “The modern world system revisited-rereading Braudel and Wallerstein” in SANDERSON, S. et alli Civilizations and World System. London: Altamira Press 1975.

[2] EKHOLM, K. & FRIEDMAN, J. “Capital” imperialism and exploitation in Ancient World Systems”. In FRANK, A. G. et alli The World system: five hundred years or five thousand? London: Routledge, 1993. p. 59-81.

[3] Cf. Nota 5.

[4] HIRTH, F. China and Roman Orient. Leipzing, 1885 e FILLIOZAT, J. L’Inde vue de Rome. Paris, Belles Lettres, 1919.

[5] Um dos primeiros arqueólogos a explorar a China, o inglês Sir Aurel Stein (1862-1943) escreveu dois volumes significativos de suas pesquisas: Ruins of desert Cathay – Archeologial and geographical exploration in central Asia 1906-8 e On Ancient central Asia tracks. Londres, 1933 (este último, uma coletânea de suas expedições).

[6] TEGGART, F. Rome and China. California: UCP, 1969 (2a ed.)

[7] Arqueólogo renomado, cuja principal área de estudos era a antiguidade indiana. Cf. WHEELER, M. The Rome beyond the imperial frontiers. London: Penguin, 1955 onde o autor aborda, na última parte, as questões aqui referidas (p. 203-214).

[8] TEGGART, F., op. cit., p. v-xii (prefácio); 225-241.

[9] Ibidem, Notas 16 e 17.

[10] Cf. Nota 5.

[11] MAZAHERY, A. publicou vários livros e artigos, dos quais utilizamos dois neste trabalho. Cf. Nota 5.

[12] Cf. Notas 5 e 6.

[13] CIMINO, R. S. et alli Ancient Rome and Ancient India: commercial and cultural contacts between the roman world and India., 1996.

[14] XINRU, L. Ancient India and Ancient China: trade on religious exchange. Oxford: Oxford University Press, 1980.

[15] Cf. Notas 5 e 6.

[16] ROWLANDS, M. , op. cit., p. 1-19; EKHOLM, K. & FRIEDMAN,J., op. cit. 59-81.

[17] MORTON, W., op. cit., p.82

[18] Tal como LEVEQUE, P. A aventura grega. Lisboa: Cosmos, 1979, que via os gregos levando o helenismo para todas as outras civilizações, inclusive para a China.