CONCLUSÃO

O estudo das relações entre Roma e China nos possibilita enxergar um panorama do mundo antigo diferente do habitual. Ao analisarmos o processo de construção da rota da seda, e a conseqüente estruturação de um sistema mundial de relações econômicas, culturais e políticas comuns aos centros hegemônicos integrantes desta via (incluindo-se aí a Pártia e os kushans), concluímos que, atualmente, a realização de muitas pesquisas no campo dos estudos clássicos necessita dar uma maior atenção à questão da interação entre o Ocidente e o Oriente na Antigüidade.

A compartimentação das sociedades antigas já foi uma “regra” na História, e durante vários anos os trabalhos do gênero sempre foram orientados a estabelecer suas hipóteses buscando apenas as fontes clássicas tradicionais e trabalhos arqueológicos localizados. Quando nos deparamos, porém, com a existência deste sistema mundial no período I a III d.C., somos levados a aceitar o fato de que as civilizações, mesmo na Antigüidade, eram capazes de articular teias de relações complexas com as comunidades vizinhas, e que as influências mútuas geravam graus de troca e dependência de padrão razoavelmente uniforme, mas de intensidade variável.

A idéia deste nosso estudo não é, de forma alguma, negar o valor de abordagens centradas nas especificidades, nos estudos de caso sobre Antigüidade romana ou chinesa; mas demonstrar, fundamentalmente, que na análise dos processos históricos de maior abrangência é necessário atentar, com maior cuidado, para os movimentos políticos e sociais deste contexto, cujas ações são norteadas por culturas diferentes em pleno processo de interação.

Questões amplamente discutidas, como o imperialismo romano ou o papel do comércio na Antigüidade, podem ser revistas em função da sua relação estrita com uma dinâmica internacional que aglutinava civilizações diferentes e fomentava uma estrutura sócio-cultural específica, compartilhada pelos centros hegemônicos e suas periferias. A observação da reprodução de padrões e escalas hierárquicas semelhantes em reinos diferentes como o império Han ou Roma nos conduz, na análise, a quebrar o isolamento destes grupos humanos mesmo em seus aspectos mais básicos, como a regulação da vida social. Práticas de manutenção da desigualdade pautadas no emprego de bens materiais foram implementadas na época estudada pelo desenvolvimento de uma política internacional de trocas, cuja via era o comércio de produtos de luxo. Campanhas militares e movimentos políticos estratégicos foram realizados levando em conta eventos de amplitude mundial, e não somente conflitos singulares entre povos.

O sistema mundial criou a perspectiva, para os povos que o integravam, de uma ordem maior no qual se viam inseridos, condicionada à existência do centro hegemônico que era a fonte de civilização e de evolução material.

Este processo de articulação, que envolveu a participação das mais diversas civilizações, fomentou considerável troca de informações dos mais diversos tipos, que se manifestaram na produção de valores culturais comuns, estilos artísticos novos, intercâmbio material, técnico e mesmo religioso. Foi através da rota da seda, por exemplo, que novidades tecnológicas chinesas chegariam ao Ocidente; e por ela, cristãos, judeus e pagãos divulgariam suas crenças em toda a Ásia.

O estudo do sistema mundial mostra, portanto, que a escala de integração entre os grandes impérios da Antigüidade era muito mais profunda do que tem sido apresentada até agora. Uma história integrada, de eventos correlacionados, fornece-nos uma base substancial para entender a conjuntura política dos séculos I a III d.C., suas guerras, a evolução material de suas sociedade e a mudança de seus padrões culturais.

O caso das relações entre Roma, China e seus vizinhos apresenta-nos, portanto, um mundo antigo muito mais complexo que antes de imaginava. Seus elementos sistêmicos devem ser estudados à luz de uma estrutura ampla, integradora de referências diversas, cujas manifestações são múltiplas. Faz-se mister que não mais compartimentemos o estudo das civilizações antigas, como se umas ignorassem as outras: na verdade, a articulação do sistema mundial foi um dos fatores que permitiu que a Antigüidade conhecesse um dos maiores períodos de riqueza material e cultural, cujo legado viria a ser uma referência para as gerações posteriores.