APRESENTAÇÃO

O objetivo deste trabalho é investigar como foi construído, entre os séculos I ao III d.C., um processo de relação e interação entre dois grandes impérios antigos, Roma e a China Han, centros geradores de poder capazes de organizar um sistema de comunicação e comércio que atravessava toda a Ásia e que se manifestava plenamente na estruturação de suas economias e sociedades, configurando de uma forma completamente nova as relações políticas que abrangiam diversas sociedades da Antigüidade.

Esta relação teve alguns antecedentes históricos, como veremos adiante, mas ela se consolida de fato na época que buscamos analisar. Tal fato se deve, provavelmente, a estabilidade política e econômica que se desenvolve no período, quando ambas as civilizações se achavam consolidadas em suas forças. [...] Mas o que caracterizou essa interação, e porque ela ocorria? Como ela se deu?
As respostas podem ser encontradas na documentação antiga, mediante uma dissecação apurada: em variados trechos vemos aparecer, tanto nas fontes romanas quanto nas chinesas, menções sobre o outro, aquele que durante um bom tempo foi negligenciado pelos tradicionais estudos ocidentais. Este outro é o estrangeiro, aquele cujo povo envia ou recebe gente e produtos, que se destaca pela sua diferença, e que por ela fica sendo conhecido. No caso dos romanos, vários são os povos estrangeiros que estão além do limes; e os chineses são um deles. Igualmente, veremos nos documentos orientais menções sobre os indianos, os partos e aqueles que nos interessam tanto quanto interessavam aos antigos: os romanos! Aparentemente todas estas sociedades já se conheciam de alguma forma, mas este tópico não parece ter despertado grande interesse histórico para a maior parte dos especialistas até então.

Para explicar essa relação - e para retirá-la do terreno do acaso - temos que lançar mão, porém, de algumas indagações fundamentais, já citadas anteriormente: como se dava essa interação? Em que nível ocorria? Qual sua função política e econômica? Como se desdobrava no meio social? Vamos buscar responder uma a uma estas questões.

Mas...Seja Bem Vindo ao meu Livro sobre as Rotas do Mundo Antigo! Todo o material aqui presente faz parte da minha dissertação de Mestrado defendida na UFF, Niterói - 2002. Você encontrará informações sobre as rotas da seda, sistema mundial, China, Roma, o intercâmbio entre civilizações do mundo antigo e suas trocas culturais e materiais.

Espero que vocês aproveitem a Visita! Qualquer dúvida, entrem em contato comigo ou dêem uma olhada na minha página pessoal.

Grande Abraço,

André Bueno


ÍNDICE

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é investigar como foi construído, entre os séculos I ao III d.C., um processo de relação e interação entre dois grandes impérios antigos, Roma e a China Han, centros geradores de poder capazes de organizar um sistema de comunicação e comércio que atravessava toda a Ásia e que se manifestava plenamente na estruturação de suas economias e sociedades, configurando de uma forma completamente nova as relações políticas que abrangiam diversas sociedades da Antigüidade.

Esta relação teve alguns antecedentes históricos, como veremos adiante, mas ela se consolida de fato na época que buscamos analisar. Tal fato se deve, provavelmente, a estabilidade política e econômica que se desenvolve no período, quando ambas as civilizações se achavam consolidadas em suas forças. É neste momento, por exemplo, que vamos ter o desenvolvimento completo da rota da seda, que foi oficialmente organizada e controlada algumas décadas antes pelo imperador chinês da dinastia Han Wu Di[1]. Mas o que caracterizou essa interação, e porque ela ocorria? Como ela se deu?

As respostas podem ser encontradas na documentação antiga, mediante uma dissecação apurada: em variados trechos vemos aparecer, tanto nas fontes romanas quanto nas chinesas, menções sobre o outro, aquele que durante um bom tempo foi negligenciado pelos tradicionais estudos ocidentais. Este outro é o estrangeiro, aquele cujo povo envia ou recebe gente e produtos, que se destaca pela sua diferença, e que por ela fica sendo conhecido. No caso dos romanos, vários são os povos estrangeiros que estão além do limes; e os chineses são um deles. Igualmente, veremos nos documentos orientais menções sobre os indianos, os partos e aqueles que nos interessam tanto quanto interessavam aos antigos: os romanos! Aparentemente todas estas sociedades já se conheciam de alguma forma, mas este tópico não parece ter despertado grande interesse histórico para a maior parte dos especialistas até então.

Para explicar essa relação - e para retirá-la do terreno do acaso - temos que lançar mão, porém, de algumas indagações fundamentais, já citadas anteriormente: como se dava essa interação? Em que nível ocorria? Qual sua função política e econômica? Como se desdobrava no meio social? Vamos responder uma a uma estas questões.

Inicialmente, temos de reconhecer que o processo de articulação entre as sociedades da Antigüidade aqui envolvidas se dava através do comércio[2], tendo em vista que não existiam fronteiras comuns entre algumas delas.[3] Este comércio internacional centrava-se no fluxo de produtos estrangeiros de luxo e de alto valor, utilizados em todas as partes do mundo antigo pelas elites locais para demonstrar seu prestígio e sua força econômica perante suas próprias sociedades (e no caso de Roma e China, também, perante as outras). Neste ponto somos obrigados a contestar a visão de M. Finley, que acreditava ser o papel do comércio secundário no mundo clássico.[4] Com o aumento dos empreendimentos arqueológicos neste campo, tem-se mostrado que a circulação de mercadorias na Antigüidade era muito maior do que aquela apresentada unicamente pelos mercados locais, o que contesta a visão ao qual se apegava este autor.[5]

Esta relação comercial cumpria, como afirmamos, uma função indispensável às sociedades da época: reproduzir as desigualdades internas e externas, tanto através do controle econômico da atividade quanto pela demonstração de prestígio e poder, manifestada pela utilização de mercadorias exóticas e de luxo. O impressionante nessa relação será observar que, em quase todas as partes desse mundo antigo, tal prática se reproduzia, e muitas vezes mediante a utilização de alguns produtos específicos, tais como a seda chinesa.

Existiam algumas dificuldades nas estruturas deste canal de comunicação: sendo o comércio feito por terra[6], pela rota da seda, ou por via marítima, através do oceano Índico[7] , os agentes componentes deste fluxo (mercadores, produtos, informações) se viam obrigados a passar por territórios cuja ordenação e estabilidade política eram variáveis e não necessariamente articuladas aos “interesses sino-romanos”: a Pártia, por exemplo, conseguiu a inimizade de ambos os impérios, tantas foram suas tentativas de controlar este fluxo, enquanto os kushans do norte da Índia se mostraram menos agressivos e mais diplomáticos, mandando embaixadas tanto para o Ocidente quanto para o Oriente, embora no século II já estivessem bem enfraquecidos a ponto de aceitar uma presença chinesa mais ativa no seu território. E podemos, igualmente, falar em interesse sino-romano? Talvez sim: em pequenos detalhes da documentação, observaremos que, por vezes, os literatos chineses projetaram em Roma uma nação ideal; e os romanos viram nos distantes Sericos uma potência tão forte como a sua[8], o que nos leva a pensar que em alguns casos a curiosidade, ajudada pela distância, criava o desejo do mútuo conhecimento. Mas este desejo aparece sempre ligado aos objetos que despertam o fascínio um do outro: as mercadorias de luxo.

Observamos, portanto, que o comércio é a grande via desta relação: mas como faremos para compreender o seu papel de integração entre as mais diversas sociedades que compunham o mundo antigo? Compartilhando da visão relativa à teoria Centro - Periferia, entendemos que houve a construção de uma relação hierárquica mutável entre as regiões submetidas politicamente ao controle dos centros de poder (Roma e China), que interagiam neste processo como geradoras de excedentes negociáveis e áreas de consumo, além de atuarem necessariamente como terreno de fronteira. Esse território, a Periferia, era o lugar de encontro das rotas comerciais, das feiras, dos povos diferentes: se tomarmos o Império romano, por exemplo, veremos que uma destas áreas mais importantes foi a do Oriente Próximo, palco de um intenso movimento de luta pelo controle dos nós comerciais que atravessavam esta região em torno dos séculos I d.C. ao III d.C.

A relação de desigualdade e dependência gerada pela construção desses impérios em diversas áreas sistematizou a organização do modelo Centro - Periferia (para a Antigüidade) de acordo, portanto, com uma série de pressupostos razoavelmente definidos que condicionavam o funcionamento da política e da economia das sociedades a uma teia de relações complexas e de dinâmica internacional. Veremos, mais adiante, a estruturação destes pontos.

As considerações que faremos, no entanto, nos permitem supor que a noção de integração entre as sociedades da Antigüidade estaria vinculada não somente ao interesse político, mas também, às possibilidades geradas por um sistema de poder que era capaz de unir as regiões periféricas numa mesma estrutura de funcionamento, o que terminava por beneficiar, algumas vezes, áreas dominadas que se viam favorecidas pela entrada de técnicas e investimento romano e chinês. Não devemos pensar, no entanto, que o processo de dominação é unidirecional: como bem observa Kardoulias[9], por vezes as periferias podiam negociar, em certo nível, sua participação no sistema colonial. Mas ainda assim estariam sempre, em última instância, vinculadas aos interesses dos Centros geradores de poder; e as culturas destas metrópoles acabariam sendo, assim, o fator determinante de organização das relações de exploração, como veremos adiante.



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[1] O Imperador Wu Di, de 141-87 a.C. foi considerado o “inaugurador oficial” da rota da seda por ser um dos primeiros soberanos a investir na construção de uma infra-estrutura para estas vias comerciais, anteriormente desordenadas e espontâneas. Para saber mais sobre este Governante, pode-se consultar suas biografias no Shi ji de Sima Qian e no Han Shu de Ban Gu (detalhados adiante, como veremos) ou ler um resumo de sua vida no livro de PALUDAN, A. Chronicle of the Chinese Emperors. London: Thames and Hudson, 2000.

[2] Ver a conceituação sobre comércio adiante, na parte de Teoria e Metodologia.

[3] É o caso do império romano e da China, que não possuíam fronteiras comuns; no entanto, veremos que os limites geográficos não impediram um contato profundo entre as duas civilizações.

[4] FINLEY, M. Economia no Mundo Antigo. Lisboa: Afrontamento, 1973.

[5] Algumas críticas ao modelo de Economia Antiga proposto por FINLEY já haviam sido feitas por outros autores, como em HOPIKNS, K. Conqueros and slaves. Cambridge: Cambridge University Press, 1978 e GREENE, K. The archaeology of the roman economy. London, Batsford, 1986. Em geral, estas abordagens centram-se no papel abrangente das atividades econômicas na sociedade romana, que teriam alcançado um razoável crescimento nos períodos iniciais do Império. Capaz de gerar excedentes negociáveis, esta estrutura produtiva estaria longe de possuir, por conseguinte, o caráter restritivo que FINLEY havia lhes designado.

[6] Sobre as rotas terrestres, ver os trabalhos de THORLEY, F. “The silk trade between China and roman empire.” Greece & Rome. N. 2 Oxford: Oxford University press, 1971; “The roman empire and the kushans.” Greece & Rome. N. 1 Oxford: Oxford University press, 1979; ANQUETIL, J. Routes de la soie. Paris: JCL, 1992; YONG, M. “A rota da seda” in Correio da Unesco N.8 Brasil, 1984; MAZAHERY, A. “La origine chinoise de la balance romaine.” Analles. 15o ano, N.5 Paris: Armand Colin, 1960 e La route de soie. Paris: Papyrus, 1983; YU, Y.S. Trade and expansion in Han China. Los Angles: Berkeley, 1967 e JANVIER, Y. “Rome et l’orient lointain: les problemes des seres”. Ktema N.9 Strasbourg: V.S.H, 1984.

[7] Sobre as rotas marítimas, ver FREZOULS, E. “Quelque einsengments de periple de la mere Eryhtres”. Ktema. N.9 Strasbourg: V.S.H, 1984; TANG, R. & COLOMBEL, P. “A Rota marítima da seda”. Correio da Unesco. N.8 Brasil, 1984; TCHERNIA, A. “Moussouns et monnaies: les voies de commerce entre le monde gréco-romaine et l’Inde”. Analles. N.5 Paris: Armand Colin, 1995; VOLLMER, J. Silk Roads, China ships. Toronto: Ontario Museum, 1984; CIMINO, R. Rome and India. New Delhi: South Asia Books, 1995; CIMINO, R. et alli Ancient Rome and India: Commercial and cultural contacts between the roman world and India. New Delhi: Munshiram Manoharial, 1996 e MU QI, C. The silk road, past and present. Beijing: Foreign Language Press, 1989.

[8] Uma análise deste aspecto está no texto de JANVIER, Y., op. cit. , p. 262-263.

[9]KARDOULIAS, P.N. “Multiple Levels in the Aegean Bronze Age World-system” in KARDOULIAS, P. N. World System theory and practice: leadership, production and exchange. New York: Rowman & Littelfield, 1999 p.180-200 aborda estes conceitos sobre sistema mundial e a relação centro/periferia, sendo que suas considerações parecem ser válidas igualmente para o nosso trabalho.

HISTORIOGRAFIA

Observemos, neste momento, de que forma foi elaborada a discussão historiográfica a respeito do tema.

Podemos dividir em duas partes o desenvolvimento dos estudos em torno das relações Roma e China na Antigüidade. Iniciemos pelas questões teórico - metodológicas.

Nos últimos anos, com o surgimento gradual de novas descobertas arqueológicas, alguns setores da História começaram a dedicar mais atenção ao estudo dos contatos internacionais em períodos recuados no tempo. A investigação desses achados levou parte dos especialistas envolvidos a duvidar da compartimentação histórica que atribuímos às civilizações mundiais e de sua capacidade cultural e produtiva independente e autóctone, tendo em vista que o nível de trocas entre os setores produtivos da sociedade deixava parecer que existiriam contatos profusos entre os mais variados povos desde períodos remotos. Isto não tirava a originalidade dos mesmos, mas forçava os pesquisadores a analisar mais profundamente em que condições temporais e materiais certos processos históricos realizaram-se, e qual a sua relação com outros fenômenos análogos.

O resultado do desenvolvimento desse ponto de vista foi a construção do já citado modelo Centro/Periferia, articulado à idéia de ciclos históricos nos quais a presença de Centros hegemônicos organizaria a estrutura política mundial (ou o sistema mundial), no contexto de práticas colonialistas de diversos níveis e tipos diferenciados.

Dois grandes representantes dessa linha são I. Wallerstein e André Gunder Frank, que construíram uma significativa parte dos modelos analíticos utilizados pelos adeptos da teoria Centro/Periferia[1]. A idéia de sistema mundial que iremos utilizar, porém, é a da Ekholm e Friedman[2] em conjunto com as proposições de Rowlands[3], que se encarregou de adaptar esse quadro teórico-metodológico para o contexto da Antigüidade, dando condições para que os sistemas imperiais clássicos e o panorama das relações internacionais na época pudessem ser entendidos à luz desta linha de trabalho.

Assim sendo, a utilização desse modelo deu-nos condição de articular, de maneira mais efetiva, as informações disponíveis a respeito do sistema Roma – China que já haviam sido estudadas no campo historiográfico e literário.

De fato, algumas pesquisas em torno do assunto tinham sido feitas, mas nenhuma de forma plena. Hirth, autor inglês do século XIX identificou na documentação chinesa referências aos romanos, mas não se preocupou em entender a dinâmica dessa relação, tal como Filliozat, que na França, já investigava no início do XX algo sobre as relações entre Ocidente e Oriente na literatura clássica greco - romana.[4] Nesta mesma época, o arqueólogo Aurel Stein percorreu a rota da seda e fez inúmeras descobertas significativas, algumas até mesmo ligadas à questão Oriente - Ocidente, mas sem formular nenhum comentário mais profundo sobre o assunto.[5] Em 1939, F. Teggart[6] publicou seu livro, no qual estabelecia uma correlação entre o Império romano e o Império chinês, tornando-se um marco neste campo de estudo. Tais pesquisas, no entanto, caíram no vácuo até a década de 50 do século XX, quando outro inglês, Sir Mortimer Wheeler[7], arqueólogo especializado na Índia e no Oriente, levantou alguns dados interessantes sobre a questão, principalmente em seu livro Rome beyond the Imperial frontiers, no qual abordava o relacionamento do limes romano com forças externas. Citando o comércio que existiria entre as nações do Oriente com Roma, este autor retomou a instigante teoria de Teggart[8] sobre a desestruturação do Império Ocidental, cujo fundamento seria uma interrupção abrupta das rotas que abasteciam a Europa através do Oriente Médio, e que se ligariam diretamente à rota da seda.[9]Um aprofundamento maior nessa visão poderia nos fornecer indicações para começar a dar forma à questão do sistema mundial, mas a preocupação maior de M. Wheeler não era essa e ele não desenvolveu tal abordagem, deixando para outros autores o resgate desta proposta.

Nas décadas de 70 e 80 tivemos ainda outros pesquisadores em torno do assunto, tais como Thorley[10], estudioso da rota da seda e das relações entre Roma e Índia, por exemplo. Na mesma linha, encontraremos na França Mazahery.[11] Mais recentemente, outros três autores franceses e belgas, Frezouls, Janvier e Tchernia[12], concretizaram um grande volume de informação a respeito dessas possíveis relações, mas careciam justamente de um modelo teórico-metodológico que pudesse pôr ordem em seus achados de maneira a criar uma concepção mais abrangente e explicativa da estrutura de funcionamento destes contatos Oriente – Ocidente. Podemos adicionar ainda os trabalhos pioneiros de Cimino[13], Xinru[14] e daqueles que estudaram especificamente a questão da rota da seda[15].

Por conseguinte, é pela fusão destes dados com as propostas apresentadas pelas teorias de Centro/Periferia e Sistema Mundial[16] que podemos finalmente construir nossas hipóteses, e daí inferir um modelo apropriado para respondê-las.

Devemos, porém, considerar um ponto importante neste nosso trabalho. Se fizermos uma análise breve dos autores que abordam a questão das relações culturais entre as civilizações antigas, veremos que existem, em alguns, a tendência em caracterizar um processo de difusão cultural tendo por base a civilização que o próprio pesquisador analisa. Assim, é comum ver sinólogos que dizem que “os romanos quase ignoravam os chineses, enquanto a China conhecia razoavelmente o Ocidente”[17], enquanto alguns classicistas simplesmente olham o mundo antigo girando em torno de Roma e Grécia.[18] Nossa posição, diante destas análises, é que cada autor teve um processo de formação específico, o que por vezes não nos os possibilitou de fazerem estudos mais abrangentes sobre certos casos (e o que, por vezes, também não eram seus objetivos diretos); em segundo lugar, o processo de trocas culturais acabou por formar um conjunto sobre o qual as civilizações tinham influência, mas não controle direto. Assim sendo, detectar a origem de certos valores ou conceitos é interessante, mas devemos ter cuidado ao analisa-las, evitando criar preconceitos ou processos de hierarquia cultural errôneos (tais como acreditar que a China era “dona” da rota da seda, excluindo a participação dos outros centros).



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[1] WALLERSTEIN, I. The modern world system: capitalist agriculture and the origins of the European world – economy in the sixteenth century. New York: Academic Press, 1974. Ver também FRANK, A. G. “The modern world system revisited-rereading Braudel and Wallerstein” in SANDERSON, S. et alli Civilizations and World System. London: Altamira Press 1975.

[2] EKHOLM, K. & FRIEDMAN, J. “Capital” imperialism and exploitation in Ancient World Systems”. In FRANK, A. G. et alli The World system: five hundred years or five thousand? London: Routledge, 1993. p. 59-81.

[3] Cf. Nota 5.

[4] HIRTH, F. China and Roman Orient. Leipzing, 1885 e FILLIOZAT, J. L’Inde vue de Rome. Paris, Belles Lettres, 1919.

[5] Um dos primeiros arqueólogos a explorar a China, o inglês Sir Aurel Stein (1862-1943) escreveu dois volumes significativos de suas pesquisas: Ruins of desert Cathay – Archeologial and geographical exploration in central Asia 1906-8 e On Ancient central Asia tracks. Londres, 1933 (este último, uma coletânea de suas expedições).

[6] TEGGART, F. Rome and China. California: UCP, 1969 (2a ed.)

[7] Arqueólogo renomado, cuja principal área de estudos era a antiguidade indiana. Cf. WHEELER, M. The Rome beyond the imperial frontiers. London: Penguin, 1955 onde o autor aborda, na última parte, as questões aqui referidas (p. 203-214).

[8] TEGGART, F., op. cit., p. v-xii (prefácio); 225-241.

[9] Ibidem, Notas 16 e 17.

[10] Cf. Nota 5.

[11] MAZAHERY, A. publicou vários livros e artigos, dos quais utilizamos dois neste trabalho. Cf. Nota 5.

[12] Cf. Notas 5 e 6.

[13] CIMINO, R. S. et alli Ancient Rome and Ancient India: commercial and cultural contacts between the roman world and India., 1996.

[14] XINRU, L. Ancient India and Ancient China: trade on religious exchange. Oxford: Oxford University Press, 1980.

[15] Cf. Notas 5 e 6.

[16] ROWLANDS, M. , op. cit., p. 1-19; EKHOLM, K. & FRIEDMAN,J., op. cit. 59-81.

[17] MORTON, W., op. cit., p.82

[18] Tal como LEVEQUE, P. A aventura grega. Lisboa: Cosmos, 1979, que via os gregos levando o helenismo para todas as outras civilizações, inclusive para a China.

TEORIA E MÉTODO

Antes de explicitarmos nossas hipóteses, vamos especificar os métodos de trabalho e os conceitos que utilizaremos. Para realizarmos este estudo, como foi dito, estruturamos nosso modelo e linha de pesquisa em torno dos axiomas do sistema Centro - Periferia propostos e adaptados por Rowlands[1] ao contexto da Antigüidade.

Nosso objetivo é mostrar a viabilidade desse modelo, apresentando indicadores que nos levem a perceber de maneira qualitativa por quais formas as interações econômicas entre Roma e China constituíram um eixo cuja importância se manifesta no processo de relação das estruturas de poder em ambos os impérios, bem como em seus espaços internos.

Buscamos entender, fundamentalmente, a noção de sistema mundial, que consistiria na integração de centros geradores de poder e cultura com regiões periféricas, criando uma relação de dependência em que o papel do comércio fosse importante como integrador político e econômico através da circulação de informação e de mercadorias de luxo que cumprissem uma função de peso, monetária e socialmente. Este sistema estaria organizado de acordo com os seguintes pontos:

n A Escala de integração entre as regiões não era baseada na fronteira física, e sim na concepção de interdependência entre as elites.

n A Integração se dá de formas variadas, segundo recursos e métodos de exploração.

n A periferia também serve de centro geopolítico, reproduzindo as diretrizes da metrópole mediante a organização dos meios produtivos, da relação de trocas e do controle social e administrativo local.

n Controle politicamente motivado, no qual a intervenção econômica varia segundo interesses particulares, mas não necessariamente articulados ao do Estado (o que nos permite observar as diferenças entre as diversas formas de intervenção estatais fomentadas por Roma, China, Pártia e Kushana, cada qual com uma política específica).

n Integração que segue um padrão desigual, tendo por base a superioridade dos interesses do Centro.

n Contradição do sistema, que favorece o desenvolvimento de algumas áreas.[2]



Assim sendo, podemos compreender como sistema mundial o desenvolvimento de uma estrutura de relações complexas pautadas no processo de interação entre as sociedades, estabelecida mediante uma relação hierárquica de trocas que se manifesta pela presença de centros hegemônicos difusores de elementos culturais e ações políticas. Inicialmente Wallerstein[3] propunha a existência de uma série de pequenos sistemas-mundiais (ou seja, em escala reduzida) que foram suplantados pela ascensão do capitalismo como sistema único, o que redundaria na formação de um complexo mundial somente a partir do século XVI. Ekholm e Friedman[4] discordaram desta postura, propondo que a existência de um sistema mundial aparece desde a Antigüidade, variando somente sua conformação política e cultural. Acreditamos que a segunda visão é mais adequada ao nosso trabalho, tendo em vista que o levantamento de nossas fontes aponta para esta possibilidade, ou seja, que a relação entre os centros hegemônicos chinês e romano fomentava (junto com partos e indianos) a existência de um circuito de interação de escala mundial, trazendo consigo a estrutura correlata composta pelas periferias. Disso deriva nossa noção de centro[5], ou seja, a fonte geradora de poder político que, através duma relação de dominação, controla e influencia o conjunto de práticas culturais, econômicas e políticas das periferias. Na conformação dos séculos I ao III d.C., Roma e o Império Han (cuja capital oficial era Chang An) surgem funcionando como os centros hegemônicos, organizando as relações de troca dentro do sistema mundial através do controle das periferias (áreas dominadas ou sob influência do centro) e articulando seu funcionamento[6]. As periferias são, por conseqüência, os grupos sociais, cidades, regiões, áreas, territórios e tribos que sofrem alguma espécie de ação do centro, seja por sua importância estratégica, seja por sua proximidade geográfica. O que caracteriza uma periferia é a existência de um grupo ou sociedade local que se articula ao centro hegemônico por motivos políticos (aliança ou dominação), econômicos (geração de excedentes negociáveis e/ou consumo de produtos de circulação controlada pelo centro) e ainda culturais (influência de hábitos, práticas e costumes advindos do mesmo centro)[7]. Nenhum destes fatores exclui ou outro, mas ajudam-nos a determinar o grau de importância de uma periferia dentro do sistema. Apesar de estarem também inseridas num sistema de relação hierárquica, cujos procedimentos são, em geral, definidos pelo centro, algumas periferias provavelmente possuíam uma capacidade de negociação maior do que outras, fosse pela importância de sua produção, sua localização geográfica, etc.[8] Neste contexto, é curioso notar que a articulação dessas sociedades, fosse com o Império romano ou com o mundo chinês, foi responsável, às vezes, por uma substancial melhoria material das mesmas, dado que foram incluídas em um âmbito de relações muito maior do que aquele que anteriormente possuíam.

Em um nível de gradação, podemos ainda definir as semi-periferias como áreas que sofrem menos interferência, ou só interferência ocasional, dos centros geradores de poder. Seriam as regiões que possuiriam fronteiras móveis com os limites imperiais tanto de Roma quanto da China (mas que ocasionalmente realizavam trocas com as periferias), não possuindo, portanto, uma inserção direta no sistema mundial mas que participavam, ainda assim, do fluxo comercial e cultural.

A ligação entre os centros e as periferias deu-se, como vimos, por várias vias, das quais destacamos aqui a troca (realizada pelo comércio), articulada à noção de mercado, que compreendemos segundo a visão de Polanyi[9]. Uma definição sintética e precisa sobre os conceitos de troca e mercado polanyianas foi apresentada por Cardoso[10]:



A troca é um movimento mútuo de apropriação de produtos entre sujeitos, produzindo-se segundo equivalências que podem ser fixas ou negociadas. As trocas implicam equivalências; mas só se forem negociadas estaremos diante de uma determinada instituição: a dos mercados criadores de preços. As instituições de mercado supõem um grupo de pessoas que oferecem ou um grupo de pessoas que procuram; ou ambas as coisas simultaneamente. Mercado e troca não são termos inevitavelmente ligados: também existem trocas segundo equivalências fixas em formas de integração caracterizadas pela reciprocidade ou redistribuição. O estudo histórico das instituições de mercado funciona melhor se o enfocamos segundo “elementos de mercado”, dos quais os mais específicos são o grupo que oferta e o grupo que procura. Se ambos estão copresentes, falaremos de mercado; se só um está presente, de instituição de mercado. Mas não precisam estar ambos presentes (se um general antigo vende em leilão o butim de guerra, só existe um grupo que procura, não um que oferece, pois se trata, no caso, de um indivíduo, enquanto a teoria formal da economia supõe a oferta ligada a numerosas pessoas; quando o Estado aloca contratos aos que oferecerem orçamento mais baixo, há um grupo de oferta, não um de procura). Segue a tais grupos, em importância, o elemento de equivalência ou taxa de troca: segundo o caráter que tome, os mercados se classificam em mercados a preços fixos e mercados criadores de preços. A concorrência só aparece nos mercados criadores de preços. Existem ainda elementos que podemos chamar funcionais: situação geográfica, produtos que são trocados, costumes e leis. Quanto à instituição de mercado chamada “preço”, entende-se como um caso especial da categoria das equivalências; os preços competitivos e, portanto, mutáveis, flutuantes, são relativamente recentes em seu aparecimento histórico. No enfoque formalista, considera-se o preço como resultado do comércio e da troca e, não, como sua condição. Na definição realista, o preço define relações quantitativas entre produtos de diferentes tipos, atingidas mediante escambo ou regateio. Trata-se da forma de equivalência típica das economias integradas por meio da troca. Mas as equivalências, em si, não dependem de trocas: podem ligar-se à integração redistributiva.



Uma crítica interessante ao conceito de mercado apresentado por Polanyi foi feita por Morris Silver[11], adepto das concepções formalistas de economicismo. Em dois longos capítulos[12], este autor propôs que a busca de soluções para os problemas de escassez e abastecimento terminava por condicionar o fluxo das trocas e o preço dos produtos em função do mercado, que seria, então, um elemento contingente para a existência do câmbio entre as sociedades. Como afirma Cardoso[13]:



No enfoque formalista da economia, mesmo quando projetado a sociedades antigas, o mercado aparece como o lugar da troca, o comércio como sua forma, o dinheiro como seu meio. E como o comércio está orientado por preços e estes são uma função do mercado, todo comércio é visto como comércio de mercado, enquanto todo dinheiro é encarado como dinheiro para troca. O mercado aparece como instituição geradora de que comércio e dinheiro são funções.



Achei que seria válido citar esta consideração tendo em vista que, com relação ao tema mercado, nosso trabalho pareceu aproximar-se, num primeiro momento, da idéia formalista de uma instituição rígida e centralizadora que, controlando o fluxo de mercadorias através de uma lógica de trocas definidas pela oferta e procura, acabava por determinar tanto o preço quanto a importância das mercadorias.

M. Silver discutiu as assertivas de Polanyi acerca da formação de preços, dos portos de troca e dos centros de coleta de taxas aduaneiras[14] entendendo que o mercado funcionava, justamente, como um diretor do processo de fluxo comercial, concentrando as atividades de câmbio e produção num único setor das atividades sociais.

No entanto, a existência dos mercados, na Antigüidade, não pode ser compreendida por esta lógica rígida, tendo em vista as formas diferenciadas pelo qual estes se organizavam e se relacionavam com as instituições políticas e sociais. A relação de oferta e procura seria uma das formas pela qual se realizavam os processos de câmbio de mercadorias, mas não a única; a busca (ou absorção) de produtos de origem estrangeira por motivos ideológicos, religiosos ou sociais criaria, por exemplo, demandas que poderiam corresponder à formação de um novo setor do mercado, cuja definição de preços seria regulada por critérios diferenciados (e não somente pela oferta ou procura). Além disso, a via comercial não seria a única forma de troca, tendo em vista que políticas de distribuição de presentes ou de suborno (como as praticadas pela dinastia Han) terminavam por interferir no uso do dinheiro e na execução do comércio, o que acabava se manifestando na constituição dos preços das mercadorias. Assim, o mercado não pode ser entendido como uma entidade fixa, mas sim como um elemento flexível que conjuga diversos campos das atividades produtivas e culturais de uma ou mais sociedades num processo dinâmico de câmbio, que sofre a influência de uma gama variada de fatores políticos, econômicos, sociais e religiosos na definição das formas de troca e na constituição dos preços.

Por conta disso, percebemos que as idéias formalistas sobre preço e mercado não funcionariam de pleno acordo com a maneira pelo qual se desenvolveu o fluxo comercial entre os impérios formadores do sistema mundial no período abordado (I ao III d.C.). As formas pelo qual se constituiriam as relações de demanda, a regulação de preços e a organização de mercados nos permitem supor que as sociedades possuíam uma influência definitiva na organização destes elementos, e diversas motivações ideológicas, culturais, econômicas e políticas teriam sido as responsáveis pela importância que o comércio adquiriu, em determinado momento, na dinamização dos intercâmbios entre as sociedades do sistema mundial. Tal multiplicidade de fatores é que explica, por exemplo, o interesse diferenciado dos governos em interferir ou não nos processos econômicos; e, da mesma forma, como determinadas mercadorias alcançaram um grande valor sistêmico não só através da valoração de seus preços, mas, também, por suas valorações culturais e políticas.

A questão do valor sistêmico é de suma importância para entender as problemáticas que envolvem as mercadorias de circulação internacional. Ele representaria a importância (em termos de valor) de uma determinada mercadoria no processo de transação entre duas sociedades. Este valor seria definido pela conjugação de uma série de atributos econômicos, culturais e políticos que envolvem a produção, a troca e a especificidade do produto. Para que uma mercadoria tivesse, portanto, um significativo valor sistêmico, era necessário que ela fosse reconhecida por mais de uma civilização como um elemento de troca com importantes atributos ideológicos, culturais e econômicos. Não bastava que determinado produto fosse apenas objeto de exportação para alcançar um alto valor sistêmico. Se observarmos o caso do coral mediterrânico, por exemplo, veremos que ele devia conseguir um bom preço em prata nos mercados chineses, mas dentro do próprio império romano ele não possuía grande valor, o que conseqüentemente diminuía sua importância sistêmica. Logo, o fato de um produto ser custoso em determinada sociedade não o torna, necessariamente, um elemento de valor sistêmico: no entanto, geralmente uma mercadoria de grande valor sistêmico acabava, normalmente, atingindo um alto preço, já que seu consumo estava ligado a grupos específicos da sociedade. Assim, esta valoração sistêmica açambarcava também o reconhecimento da importância ideológica e cultural de um produto para as sociedades envolvidas no processo de troca. O que nosso trabalho propõe é que a elaboração de um sistema mundial na Antigüidade alçou um grupo de objetos à condição de elementos de câmbio comum, servindo como demonstradores de prestígio e poder pelas elites dos centros hegemônicos, ligadas por um sistema de interdependência que configurava a ordenação das práticas sociais e políticas de poder. Logo, estes produtos adquiriram um valor sistêmico por serem aceitos em todas estas sociedades (tanto centrais como periféricas) de forma semelhante, ou seja, como artigos de luxo importantes para reprodução de uma hierarquia social e para manutenção do consumo conspícuo.

Este valor sistêmico nos obriga a fazer certas considerações sobre a conformação das áreas envolvidas neste sistema mundial: em primeiro lugar, existia a importância econômica da circulação das mercadorias, que constituiu um fator significativo para a sobrevivência dos impérios da China, Pártia e Kushana, cuja produção em certos níveis era sempre problemática. A necessidade deste comércio como forma de obter divisas para manter a estrutura destas sociedades fica patente na movimentação em torno das rotas comerciais no período abordado, quando a própria dinastia Han incentivou, de forma institucional, a distribuição de produtos chineses ao longo da rota da seda, assim como no estabelecimento de pontos de comércio ao longo da mesma (prática essa já iniciada com o anteriormente citado imperador Wu Di[15]). O reino Parto muito provavelmente via a situação de forma semelhante, já que disputava com os romanos o domínio de vários pontos de encontro de rotas (nós comerciais), como observamos através das constantes guerras travadas no período dos Cláudios, Flávios, Antoninos e Severos, além da citada prática de dificultar a passagem dos mercadores estrangeiros por seu território; e por fim, as alfândegas kushans[16], bem como as tábuas de trânsito Han[17] são uma demonstração exata que as taxações existiam e que o fisco era uma forma de acúmulo de capital[18] executada pelas burocracias estatais[19].

Um segundo aspecto desse valor sistêmico resulta do fator de reprodução social. Como dissemos, as mercadorias estrangeiras possuíam um significado específico como determinantes de prestígio e poder. São elas que simbolizam a condição hierárquica da elite que o emprega, ganhando a sua utilização um significado de poder e dominação sobre as classes menos favorecidas, que em nível estrutural se reproduzia nas desigualdades econômicas existentes entre áreas mais ricas e periferias; em ambos os casos, a pujança material servia para identificar os detentores do poder.

Essa situação fica bem marcada com a adoção por Augusto, por exemplo, da seda púrpura imperial, símbolo de riqueza e cuja cor carregava atributos de poder no Ocidente, tal como no Oriente era a cor de reis.

Conseqüentemente, estabelece-se aí um diálogo material entre dominado e dominador, no qual a apresentação dos artigos estrangeiros funciona não só como demarcador social, mas também como fonte de riqueza, rentabilidade e segurança, estabelecendo para o comércio internacional (especificamente) um patamar de aceitação diferente do comércio local, apesar da proposta de Finley[20] lhes atribuir importâncias menores em relação as outras atividades produtivas e de acumulação da época. Em compensação, se podemos observar que no Império romano o comércio não era algo limitado e restrito, e sim, uma prática de níveis diferenciados, na China a mentalidade institucional[21] estimulava-o como forma de realização material e como parte integrante da estrutura social existente. E, como se observou, a dinastia Han empregou também os produtos estrangeiros como símbolos de prestígio, o que denotava a existência de uma prática comum do consumo conspícuo na Antigüidade como reprodutora de estruturas sociais.

Podemos, então, constituir nosso modelo de investigação através dos axiomas apresentados. Temos, portanto, a noção do sistema mundial através de um conjunto de relações que articulam os Centros e Periferias, integrando-os numa estrutura relacional em que o valor sistêmico das mercadorias se torna um fator de articulação através de sua importância como reprodutor de diferenciações sociais e ideológicas, vinculadas, por conseguinte, à formação de um mercado de produtos de prestígio intrinsecamente relacionados ao comércio internacional, cujo papel de ligação entre esses grupos se manifesta na sua movimentação política, econômica e cultural.

Assim, partindo dos princípios indicados, voltamos à documentação para identificar as fontes que fundamentam nossa pesquisa. No entanto, é necessário organizar esse material, tendo em vista sua multiplicidade e diferenciação. Fá-lo-emos na próxima parte, dedicada exclusivamente à análise e a apresentação das fontes.



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[1] ROWLANDS, M., op. cit., p.1-19.

[2] Estes axiomas têm por base o texto de ROWLANDS, M. “Center and Periphery: a review of concept” in ROWLANDS, M. et alli Center and Periphery in the Ancient World. Cambridge: Cambridge University Press, 1987. p.1-13.

[3] Cf. WALLERSTEIN, I. The modern world system: capitalist agriculture and the origins of the European world economy in the sixteenth century, 1974.

[4] EKHOLM, K. & FRIEDMAN, M., op. cit., p. 59-81.

[5] ROWLANDS, M., op. cit., p. 4

[6] Sobre o sistema romano, ver NASH, D. “Imperial expansion under the roman republic”. In ROWLANDS, M. et alli Center and Periphery in Ancient World. Cambridge: Cambridge University Press, 1987 p.87. Sobre a questão chinesa, ver meu texto Poder Imperial e relações de Centro-Periferia na China Antiga. UFF - Dezembro, 2000.

[7] ROWLANDS, M., op. cit., p. 5.

[8] KARDOULIAS, P., op. cit., p. 180-200 apresenta esta possibilidade em seu texto, ainda que o mesmo não trate sobre a questão romana. O fato é que as periferias mais organizadas economicamente, ou aquelas culturalmente ligadas de forma mais profunda ao centro possuíam, provavelmente, um poder de barganha maior.

[9] POLANYI, K. Comercio y mercado en los imperios antiguos. Barcelona: Labor, 1976.

[10] CARDOSO, C.F. “Karl Polanyi: redefinição da economia de um modo social e genérico, pela crítica do economicismo e seus conceitos cristalizados, dados como evidentes e aplicáveis a todos os casos”. Notas de aula sobre Economia Antiga. UFF, s/d. Este texto é um dos vários resumos feitos pelo Prof. Ciro F. Cardoso para apresentar e discutir as visões historiográficas sobre economia antiga, do qual destacamos aqui a sua análise sobre as propostas de Polanyi.

[11] SILVER, M. Economic structures of antiquity. Westport: Greenwood press, 1995.

[12] SILVER, M., op. cit., p. 95-153 e 153 – 179.

[13] Cf. Nota 37.

[14] SILVER, M., op. cit., p. 97 – 103.

[15] Cf. Nota 1.

[16] WHEELER, M. op. cit., p.182-207.

[17] Cf. LOEWE, M. Records of Han Administration. Cambridge: Cambridge University press, 1967.

[18] O termo capital é aqui entendido como uma riqueza abstrata, representada de forma concreta pelo metal ou dinheiro que pode ser acumulado e empregado em transações diversas, além de poder ser convertido em outras formas de riqueza.

[19] O processo de acumulação (estatal ou privado, ligado a tributação, botim ou bens de troca) seria a força motriz para a formação de ciclos hegemônicos e para o estabelecimento de uma ordem mundial. A configuração de uma “acumulação interpenetrante” – ou seja, a transferência ou troca de excedente econômico – articularia o formato deste sistema, através do gerenciamento dos processos de troca e da exploração das forças de trabalho, refletindo-se, por conseqüência, na ordenação das sociedades e de seus grupos produtivos.

[20] Ver a discussão do assunto no item Teoria e Método deste trabalho e também Cf. FINLEY, M. A economia no mundo antigo. Lisboa, 1973.

[21] Influenciados pelos escritos da Escola Legista de Pensamento, desde a Dinastia Qin (III a.C.) o Estado chinês tratou de interferir diversas vezes no funcionamento da economia, regulando-a em quase todos os níveis. Alguns documentos comprovam bem esta perspectiva, tais como o Han Fei Zi, livro do ideólogo do legismo chinês (III a.C.), o Shang Yang (provavelmente anterior ao tratado de Han Fei, mas cuja primeira versão só teria surgido no tempo Qin-Han) e finalmente o Yantienlum, ou Tratado do sal e do ferro (ao qual nos remeteremos mais adiante).

DOCUMENTAÇÃO

Vamos analisar as fontes, e entender de que modo elas fundamentam nossos conceitos básicos.

A princípio, entendemos que fosse adequado dividir nosso corpus em grupos específicos de fontes, contextualizando-as segundo o gênero. Essa classificação foi necessária porque só no caso romano, por exemplo, encontramos três tipos de documentação diferentes, sem contar seus aspectos temporais: temos Plínio, O Velho,[1] e seu livro História Natural, junto com os Anais de Tácito e a Res Gestae de Augusto incluídos no gênero histórico; Ptolomeu, Estrabão e Pompônio Mela no grupo dos geógrafos, e ainda, o dos poetas, formado por Ovídio, Marcial e Horácio. Apesar das diferenças de contexto que cercam cada uma dessas obras, temos a possibilidade de agrupá-las na busca de dados, como integrantes dos textos que sirvam a nossos objetivos. Desta forma, as explicações técnicas de Plínio acerca da seda são, por exemplo, complementadas pelas informações geográficas do grupo de Estrabão, deixando a cargo dos poetas as informações que nos transmitem sobre as concepções do imaginário romano sobre os Sin, ou Sericos, (chineses). Temporalmente, todos os autores situam-se no período entre os séculos I a.C. e II d.C.

As fontes chinesas constituem um corpo de informações de diversos tipos, condensado em biografias ou histórias. Podemos encontrar nas obras de Sima Qian (o Shi ji) como de Ban Gu e Fan Ye (Han Shu) uma redação bem documentada, resultante de um trabalho complexo e aprofundado mas, ao mesmo tempo, complementado por indicações de cunho mitológico e místico. No entanto, todas essas obras foram patrocinadas e aprovadas pelos governos da dinastia Han (com exceção de Fan Ye, como veremos a seguir) e devemos investigá-las à luz de sua procedência (a elite, e feitas para a mesma), bem como do método utilizado para constituí-las.

Devemos por fim definir o que podemos utilizar daquilo que foi produzido pelos partos, kushans e sassânidas, que não nos legaram muitos escritos, infelizmente. Sobre a Pártia e o Império Sassânida, temos somente análises do material arqueológico e um texto, produzido pelo último, chamado Karnamik – I – Ardashir, que seriam as memórias históricas do fundador dessa dinastia, Ardashir I[2]. No entanto, os estudos sobre a cultura material desses povos, seus vestígios arqueológicos, estilos artísticos e arquitetônicos, nos proporcionam os elementos dos quais necessitamos para concretizar nosso trabalho. No mais, existem também as referências encontradas sobre eles na documentação romana e chinesa, que utilizaremos sempre que possível.

Vamos, então, analisar mais especificamente as obras que temos em mãos.

Em primeiro lugar, temos o trabalho do grupo dos geógrafos, representado por Ptolomeu, Estrabão e Pompônio Mela. O esforço destes três autores em retratar as fronteiras que envolvem e compõem o mundo romano foi um fruto direto do processo de expansão que o Império promoveu ao longo dos três séculos aqui abordados. Seus mapas indicam a presença dos Sin (ou Seros, Seres ou Sericos) na geografia e no conhecimento que os romanos têm sobre os mesmos. A evolução das formas de cartografia apresentadas por estes autores demonstra uma mudança na perspectiva da sociedade imperial romana em compreender o mundo à sua volta, expandindo seus horizontes para além do limes, embora este processo tivesse muito haver com o intuito dos romanos em se diferenciarem dos bárbaros mediante a delimitação de suas fronteiras físicas e culturais.

Em segundo lugar, temos o grupo representado por Augusto, Plínio, O Velho e Tácito, denominado como históricos. Nele incluímos os autores responsáveis pela leitura dos eventos sociais e da história romana, e, apesar do texto de Plínio ser substancialmente diferente dos outros, os trechos a que recorreremos em sua História Natural possuem as características necessárias para enquadra-lo neste grupo (o que nos permitiu concluir, portanto, que não seria preciso criar um novo corpus apenas para abrigar esta obra). Augusto fez no seu testamento apenas uma breve menção às nações conhecidas dos romanos, mas que nos interessa pelos nomes citados, que vão até a Índia. Plínio, no século I, escreveu sobre a seda e sua utilização na corte romana. Seu objetivo era demonstrar a origem dos produtos orientais, descrevê-los e, por fim, criticar a elite romana que abusava desses símbolos de prestígio. Explica-se: Plínio era adepto das idéias de austeridade pregadas por Tibério e via no consumo daqueles produtos uma forma condenável de ostentação. De Plínio retiramos os principais achados que contribuem para nossa idéia de que esses produtos eram empregados para demonstrar poder e status por parte da elite, transformando em necessidade a prática do comércio internacional, responsável pelo abastecimento desse tipo de mercadoria. Já Tácito escreve sobre um período complexo, em sua visão, quando o comércio já desenvolvido permeia um mundo romano cosmopolita, mosaico de culturas abaladas por guerras, conflitos e uma incrível profusão de trocas de informação. O sistema mundial estava, então, modificando-se em toda a sua estrutura, reorganizando e estabelecendo novas configurações de funcionamento, cuja interdependência afetava tanto o Ocidente romano quanto o Oriente chinês.

Por fim, temos o grupo da poesia. Ele representa três gerações temporais, convocando nossa leitura a recorrer ao imaginário constituído pelos romanos sobre os Sin, ou Seros. Com Horácio (65-8 a.C.), temos as primeiras notícias dos Sin, durante o reinado de Augusto. Depois, Ovídio nos introduz no mundo do século I, citando por vezes os chineses em suas obras como os fabricantes das sedas maravilhosas que tanto apeteciam à vaidade feminina. Já Marcial reproduziu, em seus epigramas, a mentalidade forte e conquistadora que atravessava a sociedade romana do I e II século: ele nos apresenta os Seros como uma potência militar, um império poderoso e temível.

Dessa forma, temos com estes três grupos de autores a possibilidade de cruzar informações e acompanhar, em cada contexto, o processo de desenvolvimento das práticas de ostentação, assim como de formação do imaginário romano acerca dos chineses, manifestação derivada do aumento da interação entre o Império romano e as áreas periféricas com o outro centro de poder da Antigüidade, a China. Quanto às menções que os mesmos fazem sobre a Pártia ou sobre a Índia, nós as utilizaremos quando for necessário, embora este não seja o nosso foco principal. Em geral, as citações sobre a Pártia são bem vivas, dado que os romanos se envolviam em numerosos processos políticos e econômicos com esta civilização. Já as referências sobre os indianos são menores, abordando basicamente as relações econômicas e fazendo algumas citações sobre sua cultura[3]. Os romanos não faziam muita distinção entre os kushans e os outros pequenos reinos indianos, relacionando a todos como vindos da Indika.

As fontes chinesas merecem um outro tipo de análise crítica, no entanto, dada a sua natureza diferenciada. Elas constituem um conjunto de textos de diversos tipos, como biografias, histórias, escritos técnicos, geográficos e religiosos, permeados de dados místicos e folclóricos utilizados em sua composição.

Assim, temos de investigar detalhadamente, em meio a essa documentação, as partes que tratam objetivamente das relações internacionais, presentes nas biografias e em algumas referências históricas. No entanto, esta mesma natureza complexa das fontes chinesas nos permite apreciar uma quantidade razoável de impressões e particularidades dos seus contatos com o Ocidente.

Utilizando, portanto, o mesmo critério empregado para o corpus Latino, podemos afirmar que as fontes chinesas estão próximas do grupo histórico, embora, como afirmamos antes, elas se estendam um pouco mais na diversidade de gêneros. Poderíamos fazer uma analogia das mesmas com a História Natural de Plínio, mas o preciosismo chinês na questão das datações e seu engajamento ideológico com o confucionismo as tornam substancialmente diferentes em alguns pontos. As citações sobre os romanos surgem em pequenos e intensos trechos da documentação, narrando principalmente a organização da rota da seda, o protocolo de embaixadas e a lista de produtos negociados. Este tipo de descrição tem relação com a estrutura burocrática Han, desenvolvida, desde a época Qin (III a.C.), no sentido de regular todas as transações econômicas e vigiar os movimentos políticos dentro do império celeste.[4] Era natural, por conseguinte, que muitas das informações colhidas reproduzissem a linguagem técnica dos documentos administrativos.

O primeiro dos textos investigados foi o Shi Ji, de Sima Qian (153 - 93 a.C.). Apesar de ter sido realizado perto do final do século I a.C., é um grande trabalho cujas informações são preciosas para entender os fundamentos da expansão chinesa para o Ocidente. Sima Qian coletou dados em todas as partes da China, continuando a tarefa de seu pai, para escrever a História das dinastias chinesas, principalmente a Han.[5] Em sua obra, que serviria de modelo para todos os historiadores posteriores, ele nos conta a construção de uma grande China, plena de heróis que conquistam países e povos, com uma cronologia tão bem articulada que nos fornece datas quase precisas até 841 a.C. (!)[6]. Neste contexto, Sima Qian nos dá as primeiras informações sobre os reinos do Ocidente, como os An xi (partos) e os reinos greco-indianos da Bactriana.

Estas citações surgem nos primeiros contatos dos Han com as civilizações da Ásia central, quando do estabelecimento da rota da seda. Os chineses não tinham uma idéia exata da extensão do mundo além das fronteiras partas, mas é provável que já nessa época tenham sabido da existência dos romanos.

Mas são Ban Gu e Fan ye, autores do Han Shu (Anais da dinastia Han), que nos contam a história das primeiras tentativas de contato direto entre chineses e romanos através da História de Ban Zhao, e da Viagem de Gan Yin. Estes trechos são pequenos, mas significativos (com exceção do extenso capítulo biográfico sobre o general Ban Zhao, herói da época, como veremos adiante). Ban Chao (I-II d.C.) tornou-se um general famoso quando foi enviado para os extremos das fronteiras chinesas Han para assegurar a defesa da rota da seda, debelando uma revolta no Turquestão chinês, fomentando a criação de protetorados e postos comerciais e buscando entrar em contato, por via diplomática, com as nações do Ocidente[7]. E foi seu enviado, Gan Yin, que terminou por nos contar suas impressões sobre o mundo do Oeste, embora não tenha podido ir além da Pártia. Ban Gu e Fan Ye não só comentam este episódio como, fiéis à mentalidade estatal, relacionam ainda as mercadorias ocidentais e a presença de negociantes do Oeste em seu império.

As fontes chinesas, nesse ponto, são bastante pertinentes: elas comprovam, de fato, que existia um interesse chinês pelo mundo romano, e a compreensão resultante deste fato levou os próprios chineses, em alguns momentos, a parecerem querer uma espécie de aliança com os romanos contra os partos ou contra os xiong-nu.

Temos, porém, de analisar o processo de confecção do Han Shu. Inspirado nos métodos históricos de Sima Qian, Ban Gu teria começado a redigir seu livro no século I d.C., planejando escrever uma história extensa das dinastias Han anterior e posterior. Explica-se a diferença entre as duas dinastias: entre 2 e 22 d.C., um usurpador de nome Wang Mang tentou estabelecer uma nova dinastia, tendo no entanto falhado em seu intuito, o que permitiu a retomada do poder pela casa dos Han em 22-23 d.C. Ban Gu só conseguiu redigir sobre o primeiro período Han, morrendo em 82 d.C. e foi sua irmã, Ban Zhao[8], que continuou o trabalho de escrever sobre a dinastia. Além disso, o Han Shu foi fixado sobre a primeira redação de Ban Gu, o que fez com que os escritos sobre o general Ban Chao (irmão de Ban Gu e Ban Zhao) não fossem diretamente adicionados ao seu conteúdo. Escrevendo sobre a Dinastia Han Anterior, Ban Gu não teve, portanto, a oportunidade de abordar o período da Dinastia Han Posterior. Ban Zhao continuou, porém, a recolher informações até morrer em aproximadamente 102 d.C. Posteriormente, Fan Ye, nos séculos IV - V, teria recopilado o Han Shu, denominando-o Anais da Han Anterior. Os escritos da dinastia Han posterior foram empregados na confecção de uma obra sua, que ganhou o nome de Hou Han Shu, ou Anais da Han posterior. Desta forma, temos um trabalho feito a três mãos que, no entanto, conseguiu manter uma certa uniformidade. Engajados ideologicamente no discurso confucionista, o Han Shu e o Hou Han Shu são, igualmente, obras de caráter histórico com os mesmos tipos de referência do Shi ji aos ocidentais e aos povos além da fronteira. Acrescentamos a esta lista alguns escritos posteriores que remetem igualmente a época trabalhada: o Wei Lu, o Jin Shu, o Liang Shu e o Song Shu (produzidos entre os séculos IV e VI d.C.). Estes anais, de dinastias efêmeras, contêm, no entanto, preciosas informações sobre as relações da China com o Ocidente e podem ser empregados para observar a trajetória do raciocínio cultural chinês diante das civilizações do Oeste. O que neles nos interessa é um grupo de citações curtas, algumas até copiadas de documentos mais antigos. Outros trechos, porém, indicam as transformações no processo de relação entre o Ocidente e o Oriente.

Os textos chineses são bastante concisos em suas informações: como foi dito, eles são equivalentes, em conteúdo, aos textos do grupo histórico da documentação ocidental. Os autores eram precisos quanto ao contexto de sua época, determinavam listas dos produtos negociados e, ainda, costumavam emitir breves comentários (seus, ou talvez, das elites que representavam) a respeito da recepção que as mercadorias tinham em suas sociedades, tanto como dos povos que as produziriam.

Para finalizar as questões sobre a documentação chinesa, é importante falar também sobre o sistema de notação que empregaremos; como as fontes aqui utilizadas não possuem uma subdivisão numerada de linhas, versos ou parágrafos em seus capítulos, tal como encontramos nos textos gregos e latinos, faremos somente a citação simples de cada capítulo, já que os mesmos não contém, em geral, textos muito extensos. Vale ressaltar que muitos destes escritos nunca receberam um sistema de numeração formal; alguns receberam mais de um, e como a escolha de um sistema se presta à confusão, optei, portanto, pela indicação simples dos trechos, tal como encontramos no livro de Hirth[9] e Watson[10].

Vale ressaltar que quase todos os textos aqui presentes em grego ou latim foram colhidos em traduções que contavam com a apresentação do texto original. No caso das fontes chinesas, a transliteração do Han Shu para o inglês é uma apresentação incompleta do original; o Shi ji em inglês está completo, e apesar de não contar com o texto em chinês, seu tradutor, Burton Watson, é um dos mais renomados especialistas em língua chinesa da atualidade, o que torna sua versão uma fonte confiável. Quanto aos outros textos (Hou Han Shu, Wei Lu, etc.), o trabalho de F. Hirth para vertê-los ao inglês (que é a versão do qual dispomos) é reconhecido com autoridade por todos os sinólogos e autores aqui empregados. Utilizamos, ainda as versões em chinês do Shi ji, do Han Shu e do Liang Shu para comparar com as traduções.

Estando esclarecidas as questões que envolvem a conformação e a construção da documentação, procuraremos evidenciar, ao longo da análise desenvolvida em nossa dissertação, a inserção de nossos pressupostos teóricos na interpretação dos trechos, de modo a demonstrar a relação existente entre ambos os níveis na construção do modelo.

É importante lembrar que a origem dessa documentação está ligada diretamente ao contexto de uma produção literária dirigida ideologicamente aos grupos que fomentam esse sistema de dominação e que, dessa forma, manifestam o olhar sobre o outro que constitui sua periferia. Daí decorre uma importante noção de alteridade, cuja identificação do poder político entre ambos os impérios (Roma e China) faz com que os mesmos se tratem não como periferias, mas sim como centros de poder, relegando aos grupos de segunda ordem (partos, kushans, etc) e às regiões periféricas o papel de "bárbaros" ou de "menos civilizados”.

Desta forma, acreditamos ser possível construir nosso trabalho em torno de uma base razoavelmente sólida, aplicando os conceitos referidos de acordo com o método de análise e os dados provenientes das fontes.



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[1] Apesar da obra de Plínio possuir características que a diferenciam em muito dos textos de Tácito e Augusto, decidi incluí-la no grupo dos históricos por compreender que não seria necessário criar uma nova categoria para a História Natural, tendo em vista os trechos que dela utilizaremos.

[2] De fato, a maior parte das referências textuais sobre os partos e sassânidas advém dos textos romanos ou chineses. O Karnamik – I – Ardashir não nos é de grande valia no caso, não possuindo informações significativas para nosso trabalho.

[3] THORLEY, J. “The roman empire and the kushans”., op. cit., p. 181-190 e CIMINO, R. “European geographical knowledge about India in ancient times”. Op. cit., p. 3-7; “The idea of a universal empire. The Pax Augusta”. Op. cit., p. 12-16; “General references from classical authors”. Op. cit., p. 84-87 in CIMINO, R. et alli Ancient Rome and India : Commercial and Cultural Contacts between the Roman World and India, 1996.

[4] Alguns trabalhos excelentes sobre o assunto são: BALAZANS, E. Chinese civilization and bureaucracy. New York: New Haven 1964 e BIELENSTEIN, H. The bureaucracy of Han times. Cambridge: Cambridge University press, 1980. Os dois tratam especificamente da questão burocrática na China, sendo que o segundo autor dá uma grande ênfase aos períodos Qin e Han, quando teriam sido organizadas e definidas as estruturas institucionais da sociedade chinesa antiga.

[5] KANRU, L. & YUANJUN, F. Breve História da literatura chinesa. Beijing: Línguas Estrangeiras, 1986. p. 26-30, 1986. Sobre Sima Qian, ver também MORTON, W. China: História e cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1986 p. 86-88 e WATSON, B. Early chinese literature. New York: Columbia University Press, 1960 p. 92-103.

[6] GERNET, J. O Mundo Chinês. Lisboa: Cosmos, 1979 p.159. Ponto de vista este confirmado por outros autores, como JOPERT, R. O Alicerce Cultural da China. Rio de Janeiro: Avenir 1979 p. 216-217. Sima Qian não era apenas um relator da História, mas também um crítico e estudioso da mesma. Para confirmar a validade das datas contidas nos documentos antigos, ele se valeu da comparação de fontes antigas e de tabelas astrológicas que continham os registros de eclipses e de manifestações naturais marcantes. Da análise destes documentos, ele datou uma série de episódios marcantes na história chinesa, que hoje são tidos como corretos. Foi o próprio Sima Qian que atentou para a impossibilidade de se trabalhar com os períodos anteriores ao século IX a.C., já que ele não possuía recursos para tal; e é justamente neste período que o seu Shi Ji emprega a maior parte dos relatos tradicionais e míticos não comprováveis, que o próprio autor criticava. Recentemente, porém, a lista de imperadores Shang (XV-X a.C.) descrita por ele também foi dada como correta, o que demonstra um cuidado muito grande dos chineses antigos com a questão das datações e da continuidade histórica.

[7] MORTON, W., op. cit., p. 76-80.

[8] A família Ban era composta por Ban Chao, o general famoso, seu irmão historiador Ban Gu e a irmã Ban Zhao, escritora e também historiadora. O pai, Ban Biao, havia sido igualmente um renomado literato e poeta em sua época.

[9] HIRTH, H. China and the Roman Orient, 1885.

[10] SIMA QIAN Shi ji – Rceords of the grand historian. Columbia: Columbia University press, 1993 trad. Burton Watson.

HIPÓTESES

Para fechar esta introdução, apresentaremos as hipóteses que constituem nosso trabalho:

- Existia, já no mundo antigo, uma estrutura política, cultural e econômica que caracterizaria a formação de um sistema mundial articulado pelas relações entre Roma, China e a Ásia central, tanto pela conformação do sistema (pautada nas relações de Centro – periferia) quanto pelas vias utilizadas (relações de trocas comerciais e culturais).

- Este sistema mundial de trocas, estimulado pelos centros geradores de poder, configurava-se no comércio internacional (a Rota da Seda) que, por vias marítimas e terrestres, estabelecia uma série de relações políticas e econômicas cujo alicerce eram as mercadorias estrangeiras, empregadas na criação de um padrão delimitador de poder e prestígio sociais, legitimando a desigualdade e servindo como identificador de grupos em Roma e na China, bem como em suas dependências, ainda que em escalas variáveis nos em níveis cêntricos quanto nos níveis periféricos.

É possível ver, no mundo antigo, a existência de um sistema que vinculava as sociedades pelo intercâmbio material e cultural – sistema esse no qual se observa a manifestação de hierarquias estabelecidas pela diferenciação social e econômica - e legitimadas, por conseguinte, pela redistribuição do poder a partir dos Centros hegemônicos. Teria emergido, assim, uma economia de configuração geográfica singular, onde determinados grupamentos ou regiões se encontravam em posição especialmente privilegiada, fomentando um processo de polarização das forças econômicas e sociais de diversas sociedades. A premissa que embasa o conceito dessas “economias mundiais” é que estas se dividem justamente entre centros hegemônicos e áreas periféricas, no qual o crescimento gradual dos primeiros incorpora paulatina e qualitativamente as regiões próximas em um regime de relações econômicas desiguais e dominantes.

Assim, observamos que o período compreendido entre os séculos I ao III d.C. constituiu-se em época extremamente propícia à interação entre o Império Romano e o Império Han, o que buscaremos comprovar a seguir.

O TEMPO

O período de unificação de parte da Europa no século I d.C. sob a égide de Roma foi definitivo para a consolidação das rotas comerciais ligadas ao Oriente. A experiência não era nova: Alexandre Magno já havia tentando, séculos antes, estabelecer algo no gênero, mas se politicamente sua tentativa de construir um grande império foi frustrada, os gregos conseguiram criar bases duráveis para a difusão de sua cultura e de seus interesses econômicos.[1] O estabelecimento dos reinos gregos da Bactriana[2] e mesmo a influência de elementos helênicos no reino parto são mostras da importância da cultura grega nestas áreas[3], sem contar as influências que os mesmos legaram à arte indiana nas escolas de Gandhara e Mathura, aspecto que se desenvolveria ainda mais com a solidificação da rota da seda[4], como veremos mais adiante.

No entanto, são os romanos de fato que dão coesão à estrutura do império mediterrâneo: Augusto (I a.C. – I d.C.) estende as fronteiras até o Oriente Médio, estabelece as periferias romanas nessas áreas e reformula o sistema político com o estabelecimento do Principado. O perímetro constituído pela Síria, Palestina e Armênia seria, porém, uma área de atrito constante com a periferia dos partos, instalados na Pérsia.[5]Roma havia conseguido articular um território dividido em províncias cujo trânsito de mercadorias foi favorecido pelo desenvolvimento do comércio, estabilidade política e uso da moeda romana. Assim sendo, a difusão de produtos estrangeiros foi facilitada entre as elites locais, desejosas de reafirmar seu prestígio perante Roma e em suas próprias sociedades de origem.

Apesar do seu desenvolvimento nesta época, este tráfico comercial tem origens anteriores ao Império Romano. Para entendê-las, devemos saber mais sobre a História dos outros três centros existentes no período: o Império Han, a Pártia e Kushana.

A história da Dinastia Han começa no século III a.C., com a deposição da Dinastia Qin (que havia unificado a China) e a ascensão ao trono de Liu Bang, o primeiro Imperador Han. Estabelecidos sobre uma base burocrática administrativamente eficiente (ao menos neste período inicial), os chineses da época se lançaram à conquista de novos territórios, bem como impuseram um controle severo aos ataques dos “bárbaros” do Norte do país, conhecidos como Xiong Nu.[6] As periferias chinesas se estabilizaram nessas áreas, localizadas em torno da Grande Muralha da China, cuja construção já perfazia, desde o tempo dos Qin, uma grande parte da fronteira[7] Em direção ao Sul, os Han chegaram até o Vietnã, tornando-o um protetorado (em torno do século I d.C.). E, em relação ao Oeste, foram variadas as tentativas dessa dinastia de descobrir o que havia além de suas fronteiras com a Índia.

Sob o reinado do já citado Wu Di, no período I a.C., foi enviada uma expedição oficial sob o comando de Zhang Qian para buscar aliados contra os Xiong Nu e verificar as fronteiras do Oeste.[8]Após uma série de aventuras, a embaixada teria entrado em contato com os An Xi (partos, cujo nome em chinês deriva do termo Arsácida, designação que correspondia à dinastia governante). Informações posteriores foram acrescentadas no relato de Ban Gu[9], tais como o nome das capitais partas e de algumas regiões do Ocidente.[10]Tratados foram firmados, tentando assegurar a paz entre estes dois poderosos reinos, cujas relações eram regidas por desconfianças mútuas que aflorariam já no século seguinte, como no caso da expedição do general Ban Chao, que veremos à seguir.[11] O fato é que Wu Di, dispondo das informações colhidas por seus emissários, decidiu organizar um sistema comercial controlado pela burocracia imperial que daria origem, finalmente, à rota da seda. Zhang Qian[12] havia constatado que os produtos chineses eram muito apreciados nas rotas comerciais percorridas; e o imperador concluiu disso que seria excelente tanto para política como para economia da China Han que seus artigos fossem distribuídos de forma ordenada por toda a Ásia central e mesmo por via marítima[13]. Esta época marcou o início da venda e do presenteamento maciço de seda e de mercadorias chinesas para além das fronteiras, alcançando até o Ocidente.[14] Este processo passou também por uma importante necessidade de definir as fronteiras chinesas a Oeste. Os Han começaram a fortificar as áreas onde estavam presentes ao longo da rota da seda, chegando até as fronteiras dos kushans, instalados no norte da Índia, hoje em áreas correspondentes ao Paquistão e ao Afeganistão.[15] Esta ponte sobre o Norte da Índia constituiu-se num território que alternava entre ser uma periferia e uma semi-periferia endógena ao território chinês. No século I d.C., por exemplo, o supracitado general Ban Chao foi enviado para debelar uma revolta no território do Turquestão, e existem indícios de que a mesma teria recebido auxílio dos partos.[16] Ora, esta localidade, que os chineses haviam perdido durante a crise do período Wang Mang (2-22 d.C.), tinha fronteiras com os kushans, com a Pártia ou, no máximo, com algum dos pequenos reinos de Fergana ou Bactriana, o que quer dizer que a fronteira entre as periferias desses Estados era bastante flexível e variável.

Vê-se por estes dados que os Han tiveram, portanto, muitas oportunidades para desenvolver seu sistema comercial, e tentaram aproveitá-las ao máximo. Uma breve interrupção na sua História política, representada pelo governo do usurpador Wang Mang[17], não alterou suas condições básicas de existência, e no segundo período de vida desta dinastia (os Han posteriores, ou Hou Han), vemos, mesmo, o crescimento ainda maior das atividades de troca, demonstrado tanto pelo fortalecimento das associações e casas comerciais[18] quanto pelo movimento administrativo efetuado nas fronteiras pela burocracia e pelo exército.[19]Essa época marcou, aliás, uma diminuição da forte influência que o Estado tinha sobre a economia desde a época de Wu Di[20], até que, no século III d.C., após uma série de crises sociais provocadas por períodos de escassez, fome, colheitas ruins e administração ineficiente[21], a dinastia Han enfraqueceu-se em definitivo, até que a casa imperial foi derrubada e o “mandato do céu”[22] saiu de suas mãos, dando origem a um período de divisão interna do território.

Se considerarmos a fronteira chinesa como algo móvel em direção ao Oeste, devemos nos perguntar, então, como se organizava seu principal vizinho, o reino Kushana, que aparentemente se tornaria um satélite chinês no período dos séculos II-III d.C.

Na verdade, a História dos kushans começa com a “ajuda” indireta dos chineses. O povo que teria dado origem a este reino era conhecido pelos Han como Yueh Zhi, e no século I a.C. ele teria sido empurrado por guerras violentas promovidas pelos Xiong Nu até o Norte da Índia.[23] O movimento que aí ocorreu teria como causa justamente os chineses, que haviam sido vitoriosos em suas lutas contra os Xiong Nu e os haviam alijado de seus territórios no norte da China. Este dominó lançou os Yueh Zhi contra a enfraquecida dinastia dos Shaka, instalada no território dos atuais Paquistão e Afeganistão. Finalmente, no século I d.C., Kujula Kadphises[24] teria fundado a dinastia Kushan, conhecida pelos chineses como Kuei Shang, ou Kuei Shuang, que durante algum tempo ainda lutou para se estabelecer no território contra um reino satélite da Pártia, constituído com os restos da dinastia Shaka e vencido, por fim, no mesmo século. No período dos séculos I e II d.C., a dinastia Kushana teria conhecido seu ápice sob o governo de Kanishka, patrono das artes e religiões.[25] Não são raras as citações sobre os mesmos no Shi Ji e no Han shu. Mas, já no final do século II, suas estruturas políticas se desagregaram: o que não foi tomado pelos sassânidas no século III terminou por sobreviver, precariamente, como Estado dependente do poder chinês. Há também um sério problema envolvendo a cronologia do reis kushans, de difícil solução pela escassez de informação sobre o assunto.[26] Enquanto constituíam, porém, um grande reino, os kushans conseguiram significativos recursos controlando as áreas por onde passava a rota da seda em seu território. Isso fica patente pelos depósitos alfandegários encontrados por Wheeler[27], com tesouros de origem ocidental e oriental. Além disso, as rotas descritas pelo Périplo[28] aportavam em território kushan, o que permitia a esse povo um certo controle sobre o tráfego marítimo. Tal posição permitiu que os kushans fossem bem conhecidos não só pelos chineses como também pelos romanos.[29] Augusto, na primeira parte no Res Gestae, comenta sobre a visita de várias embaixadas estrangeiras, entre elas a dos indianos.[30]Dion fala também sobre uma possível embaixada indiana a Trajano[31], e a Índia aparece nitidamente nas primeiras elaborações geográficas de Pompônio, Estrabão e Ptolomeu.[32]Thorley cita ainda a possibilidade de Adriano e Antonino Pio terem recebido visitas do gênero.[33]Por fim, os romanos parecem conhecer alguma coisa sobre a cultura indiana, como aparece na obra de Filostrato, a Vida de Apolônio de Tiana. [34]

Vemos, assim, que os kushans se estabeleceram, por conseguinte (e enquanto puderam), como um centro político forte, disposto a dar continuidade ao sistema de tráfico comercial elaborado pelos chineses, do qual tiravam significativo partido, sendo intermediários amigáveis tanto dos Han quanto de Roma.

Os motivos pelos quais sua estrutura política iria ruir no século III d.C. ainda são uma grande incógnita para a maior parte dos historiadores. Antes da diminuição do fluxo de mercadorias que ocorreria partindo da China (em virtude da queda da Dinastia Han, o que interferiria no comércio, uma importante fonte de recursos para os kushans), vimos que os mesmos, no século II, já sofriam interferências políticas nos seus domínios. De imediato, só podemos analisar brevemente sua participação neste sistema mundial no período indicado, deixando um aprofundamento maior na questão para outra ocasião.

O reino Kushana tinha suas fronteiras delimitadas por um outro Estado bastante poderoso na época, a Pártia. Esta potência, que rivalizava com Roma em grandeza e força, teve seu ciclo de existência localizado no período 247 a.C – 228 d.C. (ou seja, nos séculos III a.C. a III d.C., num movimento contextual bem semelhante ao da China e próximo das datas da expansão romana e kushan)[35] e sua economia dependia em muito, também, das rotas comerciais que passavam por seu território[36].

A história dos partos surge no processo de desagregação do domínio selêucida na Ásia central. Fragmentados por revoltas e guerras, que culminam com a independência de algumas províncias[37], os territórios dos gregos se achavam fragilizados e grupos nômades vindos das estepes se aproveitaram do momento para retirar o seu quinhão. Destes, os mais fortes foram os partos, que conquistaram as regiões próximas do Cáspio em 249 a.C. e fundaram sua dinastia em 247 a.C. sob a liderança de Arsaces, que deu nome à mesma (Arsácidas).[38] Não demoraram a solapar o que restava dos domínios selêucidas, e um poderoso soberano parto, Mitrídates I (171-138 a.C.), finalizou esta carreira de vitórias conquistando a Pérsia e a Babilônia.[39] Esta onda ecoou em territórios distantes: em 106 a.C. (no período da segunda viagem de Zhang Qian), os chineses enviaram uma embaixada a Mitrídates II em reconhecimento de sua força.[40]Manobra hábil dos chineses: eles haviam buscado, anteriormente, apoio nos reinos bactrianos[41] contra os Xiong Nu, mas pressentindo as mudanças no panorama político, aproveitaram a oportunidade e distribuíram mais presentes para os partos do que para os outros.[42]

O reino parto, porém, praticava uma política agressiva de controle nas fronteiras e nas rotas comerciais, bem como na disputa de território, o que terminou por colocá-lo em situações de conflito extremo e de delicado relacionamento internacional com as potências kushan e chinesa, mas principalmente com Roma.

O conflito entre Pártia e Roma tornar-se-ia uma história de séculos, em disputa, sempre, pelas regiões da Síria (tomada pelos romanos aos selêucidas), Armênia e demais territórios do Oriente Médio. Augusto[43] ficou famoso por recuperar as insígnias romanas perdidas por Crasso. Já Trajano[44] foi, provavelmente, o mais bem sucedido de todos os soberanos romanos na região, estendendo ao máximo as fronteiras imperiais sobre a área: mas seria justamente Marco Aurélio, o “imperador filósofo”, que deixaria seu nome registrado nos documentos chineses como An Tun[45], representado por uma embaixada (cujo caráter duvidoso veremos adiante) que se utilizava do prestígio de seu nome após uma tremenda vitória infligida aos partos.

Este, no entanto, é o lado vitorioso romano: se Roma não tivesse disputado tantas vezes suas províncias com as forças partas, não haveria tantos heróis e conquistadores na sua História. Mas o fato é que os partos desequilibravam o jogo das relações internacionais da época com suas constantes manifestações de força. Já no século I d.C., quando Ban Chao reconquistou o Turquestão[46], supõe-se que ele teria recebido informações sobre a presença de emissários e forças partas (ou gregas) no local, terminando por enfrentá-las e vencê-las.[47] O rei da Armênia também buscou o apoio da distante dinastia Han para seu reino, diante desta instabilidade política, enviando embaixadas à corte chinesa.[48]

Diante destes acontecimentos, vemos que os partos não se sujeitariam facilmente à ingerência de qualquer outro governo em seu território; e na sua política externa, o tom conciliador vinha acompanhado de interesses econômicos e políticos bem definidos. Mas, por isso mesmo, devemos crer que, quando possível, este mesmo reino, cuja forte interação com o fluxo comercial internacional era patente, deveria buscar formas de administrar suas relações políticas nas fronteiras, tanto com as periferias romanas quanto com seus vizinhos orientais, como forma indispensável de sobrevivência. Daí porque vemos esta sociedade encarando o combate aos nômades orientais[49]como uma “tarefa” e cultivando a cultura grega como forma de arte e de civilização “superior”.[50] Ao partos tinham três capitais arquitetonicamente desenvolvidas, chamadas Ecbatana, Hecatompylos e Ctésifon[51] , que também possuíam uma forte atuação comercial. Por fim, esta sociedade bem estruturada só seria desarticulada, no século III, com a chegada de outro povo vindo dos planaltos iranianos, os sassânidas, cuja cavalaria vitoriosa destruiria os governantes partos[52] e os substituiria na ameaça aos romanos. Constituídos por um grupo de etnia persa, os sassânidas entram neste final de cena, liderados pelo seu rei, Ardashir[53], para constituir um novo reino no Médio Oriente e assumir o controle das rotas comerciais para o Ocidente. Este grupo, porém, foi mais hábil na administração de seus conflitos externos, e, apesar de sua periculosidade e eficácia na guerra contra os romanos, soube conciliar o maior tempo possível a existência pacífica de suas periferias com Roma e com a Índia, esta, já no final do século III, fragmentada em diversos reinos.

Por este quadro observamos que, no século I d.C., quando uma crescente e razoável estabilidade surgiu nas fronteiras, o comércio pode ocorrer com maior fluidez entre os centros hegemônicos. Devemos agora proceder à análise das rotas marítimas e terrestres nele utilizadas, e de como estas serviam na articulação das periferias e na formação do sistema mundial.



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[1] Cf. JAROCKA, M. L. “As relações entre a Índia e a Grécia antes e depois de Alexandre”. In Textos de Cultura Clássica N. 16 Rio de Janeiro: SBEC, 1991 e LÉVEQUE, P. O Mundo Helenístico. Lisboa: Edições 70, 1987 p. 190-200.

[2] Reinos cujos territórios abrangiam partes correspondentes, atualmente, ao Norte da Índia, Paquistão e Afeganistão. Sobreviveram basicamente até o final do século II a.C., quando começaram a ser desalojados pelos Kushans. Dois livros interessantes que analisam as influências gregas na Ásia central são de HOLT, F. Alexander the Great and Bactria New York, 1995 (s/ed.) e Thundering Zeus Berkeley: UCP, 1999.

[3] LEVEQUE, P., op. cit., p.199-200.

[4] Para ver mais sobre a arte dessas escolas, ver FOUCHER, A. L’art greco-bouddhique du Gandhara. Paris: Imprimerie National, 1905; COOMARASWAMY, A. A History of Indian and Indonesian art. New York: Dover, 1985 e os trabalhos mais recentes de HUNTINGTON, S. The art of Ancient India. New York: Weatherhill, 1985 que reconsideram uma série de conceitos que envolvem as formulações teóricas sobre os estilos presentes nessas escolas.

[5] De fato, são muitos os documentos históricos romanos a partir desta época que contém alguma referência aos partos, com os quais são travadas guerras constantes pelo controle dos pontos axiais do comércio existentes no Oriente Próximo. Utilizaremos aqui aqueles que julgamos mais pertinentes ao nosso trabalho.

[6] Um bom resumo sobre este momento histórico pode ser visto em TRAUZETEL, R. & FRANKE, H. El Imperio Chino. Madrid: Siglo XXI, 1973 p.65-109 e também MORTON, W., op. cit., p.78-83.

[7] Shi ji, LXXXVIII.

[8] Shi Ji, CXXIII.

[9] Han shu, XCVI.

[10] A Síria, por exemplo, era conhecida pelo nome de Li kan; Pathurva, um dos nomes associados a Hekatompylos, uma das capitais partas, era chamada ora de Ban tou, ora, de Dangham; isso sem contar a região da Babilônia, que era Diao Chi,entre vários outros que veremos ao longo do trabalho.

[11] Hou Han shu, LXXXVI-LXXXVIII.

[12] Shi ji, CXXIII.

[13] A Dinastia Han se viu incrivelmente facilitada na sua tarefa de comerciar dentro e fora de suas fronteiras graças à política da grande unificação imposta durante a Dinastia Qin. Qin Shi Huang Di, o primeiro imperador Qin (III a.C.), unificou as moedas, os pesos, as medidas, a escrita e as taxações. Por conta disso, como o sistema chinês abrangia um grande território, as áreas periféricas terminaram por adotar parte das regras chinesas, visando facilitar seu câmbio com o Império Celeste.

[14] É o caso das cortinas de seda de Julio César, citado em Dion, XLIII, 24 APUD THORLEY, J. “The silk trade between China and Roman empire”. Op. cit., p. 71 Alguns sinólogos costumam chamar esta época de Pax Sinica, em analogia a Pax Romana.

[15] Mapa Han 1, em anexo.

[16] Hou Han shu, LXVI-LXVIII.

[17] TRAUZETEL, F., op. cit., p. 65-109 e também MONTENEGRO, A. Historia de la China antigua. Madrid : Istmo, 1974 p. 291-339.

[18] GERNET, J., op. cit., p.129-135.

[19] GERNET, J., op. cit., p.122-123, mas o principal estudo sobre o assunto é o de LOEWE, M. Records of Han administration, 1967.

[20] Wu Di estabeleceu o controle estatal sobre várias áreas produtivas, além do controle fiscal rígido, determinando também a cunhagem de uma moeda para facilitar o comércio. Alguns desses monopólios não iam, porém, ficar sob controle estatal constante, mas terminariam por serem negociados ocasionalmente, segundo a vontade de cada soberano, com a iniciativa privada, alternando portanto, uma condição ora imperial, ora privada, em épocas diversas da história Han. TRAUZETEL, F., op. cit., p. 83. Veremos adiante, porém, que a interferência estatal na economia seria sempre forte.

[21] Para um estudo detalhado dessas crises, ver LOEWE, M. Crisis and conflict in Han dynasty. London: George Allen, 1974.

[22] Após a época da dinastia Zhou, os Imperadores começaram a governar tendo por base a crença de que recebiam um Mandato do Céu, ou seja, um período estabelecido pelas forças cósmicas e pelos deuses, no qual recebiam o encargo de administrar a vida na terra. A perda deste mandato significava a ruína de uma dinastia, provavelmente, segundo o imaginário político chinês, porque aqueles que executaram o poder não o teriam feito de forma correta, incorrendo em crimes contra o povo e contra a natureza.

[23] THORLEY, J., op. cit., p.72 – este ponto é mais bem detalhado no livro de THAPAR, R. History of India. London: Harmondsworth, 1966 p. 92-109 e DANIELOU, A. Histoire de L’Inde. Paris: Fayard, 1979 p. 141-151. Um estudo específico pode ser encontrado em KOSHELENKO, G. The Yue Chi and the migrations. New York: UNESCO, 1994.

[24] Em chinês Qü Chü Queh APUD GROUSSET, R. The empire of steppes. New York: Barnes and Nobles, 1999 p.32.

[25] GERNET, J., op. cit., p.129-135.

[26] THORLEY, J. “The Roman empire and the kushans”. Op. cit., p.190.

[27] WHEELER, M., op. cit., p. 164-173; 183-214

[28] O texto do Periplus indica vários pontos de trocas na costa da Índia. APUD FREZOULS, E.., op. cit., p.322 e THORLEY, J., op. cit., p.182.

[29] THORLEY, J., op. cit., p. 181-190; CIMINO, R., “General references from classical authors” op. cit., p. 84-87. Sobre as fontes, ver também COEDES, G. Textes d’auters grecs et latins relatifs a l’extreme Orient. New York: Ares Publishers, 1977.

[30] Res Gestae, XXXIII. Ver também CIMINO, R. “Indian Ambassadors at the Roman Court” op. cit., p. 17-24.

[31] Dion LXVIII, 15 APUD THORLEY, J., op. cit., p.184.

[32] Ver os Mapas em anexo.

[33] THORLEY, J., op. cit., p. 186.

[34] Um artigo interessante sobre o assunto foi publicado por HANUS, P. “Apollonios de Tyane et la tradition du “theios aner” in Dialogues de Histoire Ancienne. Paris: Presses Universites Franc-Comtoises, 1988 N. 24/1 p. 200-231.

[35] FRYE, R. The history of the ancient Iran. München: C.H.B. Verlagbuchandlung, 1984 p. 209; 360.

[36] COLLEDGE, M. The Partians. London: Thames and Hudson, 1967 p.22-35.

[37] Resultando daí a formação dos reinos greco-bactrianos.

[38] LEVEQUE, P., op. cit., p. 43.

[39] LEVEQUE, P., Op. cit., p. 43-44.

[40] As datas oscilam neste ponto entre 106-91 a.C. No Shi Ji, Cap. CXXIII, temos uma segunda embaixada de data não precisada para os An Xi. HIRTH, H. China and the Roman Orient: researches into their Ancient and Medieval relations as represented in old chinese records. Shangai & Hong Kong, 1885 p. 35-96 situa-a em 91 a.C.; GROUSSET, R., op. cit., p. 30-34 e LEVEQUE, P., op. cit., p. 200 situam-na em 106 a.C. A confusão ocorre por um motivo simples: em 115-105 a.C., temos a segunda viagem de Zhang Qian, o que torna a embaixada de 91 a.C. um empreendimento desvinculado de sua figura.

[41] Por eles nomeados como “Da Yuan”. Shi Ji, CXXIII.

[42] Shi Ji, CXXIII.

[43] Augustus – 27 a.C. – 14 d.C.

[44] Trajano – 97d.C. – 117 d.C. Cf. KENNEDY, D. Rome’s desert frontier. Austin: UTP, 1990 p.34-35.

[45] Hou Han Shu, LXXXVIII ; Wei Lio (sem numeração) e Liang shu, LIV.

[46] Hou Han Shu, LXXXVI.

[47] A dúvida que reside nesta questão é a seguinte: GROUSSET, R., op. cit., p. 31 cita uma versão, aceita, segundo o qual o território em questão ainda seria dominado pelos gregos no momento da invasão chinesa. Assim sendo, é difícil esclarecer se esta era uma possessão legítima chinesa, tomada aos bactrianos, ou se os “gregos” em questão poderiam ser os partos. Para avaliar o problema, o general Ban Chao decidiu enviar seu emissário Gan Yin para viajar ao Ocidente, conhecer os territórios e, se possível, contactar os romanos, o que nos parece uma indicação clara de que a desconfiança entre chineses e partos cresceu, de qualquer forma, naquela época. O relato da viagem de Gan Yin, contido no Hou Han Shu, LXXXVI – LXXXVIIII transmite a impressão - dos chineses - de que ele teria sido dissuadido de continuar sua viagem em território parto, o que nos permite confirmar que as relações entre a China e a Pártia se encontravam, realmente, num estado bastante delicado.

[48] Hou Han shu, LXXXVI O rei da Shan (Armênia) era conhecido pelos chineses como Yung yu tiao e ao que parece ele teria enviado duas embaixadas, inclusive com intérpretes que sabiam falar chinês; uma durante o reinado de Ho Di (89 d.C. - 106 d.C.) e outra durante o governo de Yung Ning, em 120 d.C.

[49] GROUSSET, R., op. cit., p.31.

[50] LEVEQUE, P., op. cit., p.200 afirma que os partos podem ser considerados um reino “filo-heleno”, ou seja, uma conjugação dos elementos anteriores da cultura nômade parta com manifestações aquemênidas persas e, principalmente, com elementos advindos da cultura grega. Esta indicação parece ser confirmada pela análise da cultura material, como aparece, por exemplo, no livro de COLLEDGE, M. The partians. London: Thames and Hudson, 1967.

[51] Em chinês, Hamadham (Ecbatana), Dangham ou Ban tou (Hekatompylos). Ecbatana aparece também, no Han Shu, como Ukaman e Ctésifon como Si Pan. Os chineses não tinham grandes problemas para variar os nomes ocasionalmente.

[52] A queda da Pártia ocorreu em 228 d.C.

[53] Karnamik I Ardashir, I.

O SISTEMA MUNDIAL

Para compreendermos como funcionava a articulação entre os centros e as periferias existentes na época é necessário, portanto, que apresentemos, agora, como estavam estabelecidas as rotas pelas quais era realizado o comércio internacional.

Os centros geradores de poder exerciam também controle e serviam de ponto de partida das vias comerciais que ligavam o Ocidente ao Oriente tanto por terra quanto por mar. Estas rotas seriam conhecidas como a “rota da seda”, indicando a importância da circulação deste produto no mundo antigo.[1]A documentação chinesa nos indica os produtos que os comerciantes da dinastia Han gostavam de adquirir e/ou trocar no Ocidente: principalmente ouro e prata (escassos no território chinês), mas também uma lista[2] grande e bastante interessante, com a descrição de alguns produtos que até hoje são objeto de discussão: entre as pedras preciosas, a “jóia que brilha na lua”, a “pérola lunar” e a “pedra do rinoceronte assustado”, circulam entre chineses e indianos, ao lado do âmbar, dos vidros da Síria e do Egito; e ainda, o “Lang kan” (espécie de coral), jade, tapetes bordados, perfumes, madeiras e, quando possível, animais desconhecidos, muito apreciados pela elite e pela corte Han. O ouro e a prata provavelmente vinham da Espanha e, depois, do Báltico, onde, no século I d.C., foram descobertas novas minas.[3] Quanto ao vidro, os orientais pareciam saber que se tratava de um produto de Li kan[4], não tendo dificuldade para localizar sua origem. J. Thorley afirmou que, devido ao interesse em manter o monopólio das rotas que passavam por seu território, vez por outra os partos devem ter tentado enganar ou trapacear os orientais quanto à origem das mercadorias que negociavam; mas, contanto que fossem respeitadas suas fronteiras, as atitudes de desconfiança arrefeciam em relação aos estrangeiros, o que lhes permitia então serem mais abertos sobre a proveniência dos produtos.[5]

O coral mediterrânico também era extremamente apreciado por chineses e indianos, e os romanos, que não davam muito valor ao mesmo, tratavam de explorá-lo e revendê-lo aos negociantes orientais, interessados no produto pelo seu valor na Ásia. Já o vidro era trocado por quantidades razoáveis de seda, posto que os chineses não conheciam corretamente a produção do mesmo e tendiam, desta forma, a confundi-lo com alguma espécie de cristal.[6] Por fim, os bordados e perfumes parecem ter sido provenientes do Oriente Próximo, onde as províncias romanas produziam-nos em grande quantidade para exportação.[7]Existem também interessantes referências ao tráfico de escravos, que eram apreciados pelas elites chinesas por serem estrangeiros, com cores de pele e feições diferentes das suas, o que constituía um poderoso símbolo de prestígio.[8]

No que se relaciona ao Ocidente, porém, não foi preservada (ou talvez não se produziu) nenhuma lista do gênero, comparada à chinesa. Sabemos que, além da seda, os romanos e partos compravam especiarias da Índia[9], traziam de lá tecidos e objetos exóticos e admiravam profundamente a qualidade do ferro produzido na China.[10]

Na formulação deste sistema de trocas, os centros articulavam a produção das diversas periferias existentes direcionando-as para as vias de comércio estrangeiras. No caso de Roma, vemos que seus metais preciosos vinham, como foi dito, da Espanha e do Báltico; que o vidro e os tecidos provinham da Síria e do Egito; o coral, espalhado por todo o Mediterrâneo, era trabalhado para confecção de jóias em várias partes do império, inclusive no Norte; e da Escandinávia, região semiperiférica que fazia contato com as províncias romanas, provinha o âmbar, que era vendido em pedra ou utilizado na produção de perfumes na Palestina e em outras partes do Oriente Próximo.

Do mesmo modo, o império chinês controlava a produção e distribuição da seda, bem como vigiava o trânsito de mercadorias e a cobrança das taxas alfandegárias.[11] Aparentemente a seda era produzida em toda a China, mas o sul obtinha melhores resultados pelo seu clima ameno, mais adequado à vida das lagartas, o que conseqüentemente favorecia seu rendimento. O monopólio do Estado afetava também a manufatura do ferro, do sal e de outros produtos negociáveis no estrangeiro.[12]Em Roma, a intervenção do Estado nas atividades de comércio e produção não parece ter sido tão forte, e o seu direcionamento estaria mais espontaneamente ligado ao interesse econômico das elites locais em se articularem ao sistema do império.

Devemos agora analisar os aspectos geográficos relativos a estes contatos.

Como vimos, a idéia de estabelecer uma rota oficial da seda partiu do Imperador Wu Di (I a.C.), mas seu oficial, Zhang Qian, havia constatado que os comerciantes chineses já conheciam muito bem as vias de trânsito na Ásia central que levavam à Índia e ao Ocidente.[13]

Os pontos de partida das rotas terrestres eram Chang An e Luoyang, capitais do Império Han. A primeira, cidade de traçado geométrico, contava com uma parte específica do seu perímetro urbano destinada somente aos mercados, onde se misturavam negociantes de todas as partes da China, caravanas vindas do oeste longínquo e embaixadas dos mais diversos locais do mundo antigo.[14] Teria sido aí que os chineses haveriam recebido a “embaixada” de An tun[15] em 166 d.C. J. Gernet identificou ainda outras embaixadas (mais provavelmente caravanas) que teriam sido enviadas aos chineses em Luoyang e em Nanjing em 226 e 284.[16] Antes disso, porém, os chineses já haviam recebido também embaixadas da Índia (89 e 105 d.C.) e de Sumatra (132 d.C.), além das já mencionadas comitivas do Yung yu tiao de Shan (o rei da Armênia) em 89, 106 e 120 d.C.[17]

Da capital Han[18], a rota terrestre se dirigia à cidade de Fengsiang, a Oeste e depois, através da região do Gansu, à cidade de Anxi, onde se dividia em dois caminhos, o percurso sul e o percurso norte, que atravessavam diretamente o deserto de Liu Sha, conhecido por nós como Taklamakam. A diferença entre estes dois caminhos parecia residir única e exclusivamente na opção que se fazia pelos oásis ao longo de cada um deles. Ambos voltavam a se encontrar, já na altura de Kashgar, no final do Turquestão, em direção a Samarcanda ou diretamente para Merv, primeira cidade no território parto. Ao passar pelo Hindukush e pelo Pamir, os comerciantes chineses já se encontravam em território kushan, onde podiam transitar livremente mediante o pagamento de taxas, que ficavam guardadas em depósitos aduaneiros que foram descobertos por Wheeler.[19] Samarcanda, ponto importante desta rota por ser a confluência entre mercadores vindos do oriente e ocidente, esteve na maior parte do tempo em mãos kushans, embora durante um breve período os partos tenham tentado controlá-la através da imposição do reino Shaka, mas sem sucesso.

De Samarcanda seguia-se para os limites da Pártia. Havia uma proibição expressa por parte dos partos de que comerciantes estrangeiros pudessem passar por seu território, sendo obrigados a negociar seus produtos em Merv. Não temos conhecimento exato da extensão desta lei, já que são os chineses que a comentam; logo, não sabemos se eram apenas seus representantes e aliados que estavam proibidos de circularem pelo reino, ou se a proibição alcançava realmente a todos os comerciantes. É difícil precisar este ponto, já que os emissários e viajantes estrangeiros pareciam não ter a mesma dificuldade para circular pelo território, salvo em caso de exceções como a de Gan Yin. Mas esta situação era compreensível, se pensarmos que este enviado chinês representava alguma espécie de ameaça aos partos após a esmagadora vitória de Ban Chao no Turquestão. Era sabido que os chineses constituíam um império poderoso e expansionista; e, por isso, os partos não podiam conceder facilidades a potenciais inimigos.

De Merv, os comerciantes levavam suas mercadorias para o sul, em direção ao Golfo Pérsico, onde seriam negociadas com os árabes e/ou levadas para a África; ou então, continuavam a seguir as rotas para oeste, até a fronteira do império romano, passando necessariamente pelas suas capitais, Hecatompylos[20], Ecbatana[21] e por fim Citésifon, nas quais provavelmente as cortes retiravam sua parte nas mercadorias negociadas. Uma história (não comprovada) conta inclusive como os partos teriam apresentado a seda aos romanos de uma forma peculiar: em 53 a.C. Crasso, ao comandar suas legiões contra os partos, teria sido enganado por um truque no qual o tecido foi utilizado para refletir a luz do sol e cegar os legionários, que terminaram por ser destruídos pela cavalaria parta.[22] Esta narrativa bastante improvável não esclarece, porém, o fato dos romanos já conhecerem a seda bem antes disso: o próprio Julio César, contemporâneo de Crasso, tinha suas cortinas de brocado.[23] De Citésifon, as mercadorias fluíam através da fronteira pelo império romano, chegando a Petra, Tiro, Dura-Europos, Palmira e Damasco, além de Jerusalém. De Ecbatana existia uma estrada que levava diretamente a Zeugma e também a Antioquia, cidade em crescimento na época.

Destes mercados os produtos estrangeiros se propagavam pelos territórios romanos, e para os mesmo lugares de passagem afluíam as mercadorias que seriam levadas para o Oriente. Daí esta área do Oriente Próximo ser um constante motivo de atrito entre romanos e partos: dominá-la seria uma forma de assegurar, para os últimos, um monopólio ainda maior sobre o fluxo de produtos estrangeiros; e para os primeiros, um caminho pelo qual pudessem estender sua influência sobre o Oriente.

Observamos que a conformação desta rota estruturava em parte o trânsito comercial do sistema mundial. Mas existiam ainda outras rotas, que devemos analisar.

Voltando a Fengsian, encontramos uma via, em direção ao sul, que era mais utilizada na época do verão, posto que no inverno ele se tornava intransitável. Este caminho se dirigia ao Himalaia, atravessando a região do Sinkiang, onde foram catalogados inúmeros achados de mercadorias ocidentais e orientais negociadas nesta área através da rota.[24]Passando por aí, a rota seguia para o Golfo de Bengala, onde os chineses vendiam ou trocavam nos pequenos reinos hinduístas e budistas que não estavam sobre o controle dos kushans; ou, continuavam a seguir por terra, para oeste, até o mar da Arábia, já em território do reino Kushana ou ainda, subiam novamente em direção norte até chegarem a Taxila, importante cidade que fazia a ligação entre esta segunda rota e a primeira.

Parece-nos que esta via não era somente uma opção às rotas conhecidas como “principais” em determinadas estações do ano. Acreditamos que ela existia pela comodidade que oferecia aos chineses de negociarem grande parte do tempo em seu próprio território, oferecendo maior segurança. No entanto, é provável também que as mercadorias indianas e ocidentais lhes chegassem com um preço maior, devido ao grande número de atravessadores existentes até os portos de Bengala e na Índia central.

As rotas que atravessavam o mar, porém, é que atualmente despertam os fascínios dos historiadores.[25] Até recentemente, muito dos estudos que envolviam a possibilidade de existirem vias marítimas para o Oriente resvalavam no realismo fantástico, e por isso não eram devidamente analisadas.[26]A evolução da Arqueologia propiciou, no entanto, uma mudança deste panorama, que aliada à uma releitura dos textos clássicos, nos permitiram fazer inferências mais aproximadas sobre a realidade das trocas comerciais realizadas pelo mar.

Nesta época, os chineses não eram ainda grandes navegadores, preferindo dirigir-se para o interior do território. Mas acreditavam, de igual maneira, que dominar as áreas costeiras era importante para o monopólio do comércio, já que diversas frotas mercantes e embaixadas vinham por mar. [27]

Desta forma, podemos compreender o avanço chinês em direção à península da Indochina, chegando ao Vietnã e controlando aí os portos que faziam a ligação do império chinês com a Malásia e Sumatra.[28] Acreditamos que nestes portos os chineses já se misturavam com marinheiros de diversas nacionalidades, limitando suas ações de longo curso, tendo em vista que esta não é a época, ainda, em que a China será conhecida por formar grandes navegadores.[29] Os indianos (acompanhados aí, e em menor escala, de árabes, malaios, anamitas, africanos e ocidentais) conheciam bem as rotas que atravessavam o Golfo de Bengala e o Mar da Arábia. Vendendo as mercadorias nos portos existentes no subcontinente indiano, estes comerciantes marítimos tinham três opções a seguir: a primeira, vender aos pequenos reinos existentes na costa leste, margear todo o território até o outro lado, onde poderiam negociar em território kushan, ou mesmo, penetrar no Golfo Pérsico para se encontrarem com partos, árabes ou romanos. Os árabes achavam interessante também margear seu território até chegar à Etiópia e entrar pelo Mar Vermelho.

A navegação direta até a Índia, atravessando o mar Arábico na época dos ventos das monções é que deu origem ao Périplo do Mar Eritreu, manual de navegação que permitia aos ocidentais chegarem até os portos kushans com segurança e em tempo razoável através do oceano Índico. Plínio[30] e o Périplo discordam sobre algumas informações referentes à descoberta da técnica, mas o mais provável é que os ocidentais a tenham aprendido com os indianos ou com os árabes. Reid[31] afirma que a rota representada pelo Périplo era complementada por uma outra rota que atravessava todo o Índico tendo por ponto de partida a Indonésia e o Sudeste asiático. A esta rota ele dá o nome de Rota da Canela, mas não podemos afirmar com toda clareza se ela era utilizada com assiduidade pelos orientais nesta época, apesar de indicações positivas.

Os ocidentais não ignoravam também de todo as rotas terrestres: Ptolomeu[32] descreveu, por exemplo, um mercador de origem macedônia chamado Maes Ticianos que teria mandado enviados por várias rotas do Oriente para melhor conhecer os mercados e produtos, bem como as regiões de onde provinham e pelo que eram trocados.

Esta breve análise da estrutura das rotas da seda demonstra, por conseguinte, que o funcionamento do sistema mundial estava intimamente ligado à questão do comércio e que pelas rotas que atravessavam o território dos quatro grandes impérios da época transitavam os produtos que seriam utilizados pelas elites como demonstração de importância social e de poder político e econômico. Não obstante a função que o comércio possuía para o equilíbrio econômico de sociedades como as dos kushans e partos, vemos que existia também a troca de elementos culturais e técnicos entre o Oriente e o Ocidente; além da transmissão do Périplo, por exemplo, supõe-se que a balança utilizada na maior parte das transações em todas as rotas da seda teria origem chinesa[33], nos apresentando-nos, portanto, uma via de mão dupla no trânsito dos conceitos, valores e idéias que estas civilizações criavam e trocavam entre si.

Examinaremos, agora, a conformação deste sistema mundial. Já vimos os pressupostos teóricos sobre os quais construímos a idéia de sua organização, bem como sua disposição geográfica (as rotas da seda). Analisaremos, por conseguinte, as manifestações culturais, econômicas e políticas deste sistema nos centros hegemônicos chinês e romano, realizando também uma análise mais breve sobre as civilizações da Partia e de Kushana. Se até agora nos detivemos nas características gerais do sistema em questão, observaremos, neste capítulo, a vivência, por parte destas culturas, da importância do sistema mundial em suas estruturas de vida.



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[1] O termo “rota da seda” foi criado pelo especialista alemão Ferdinand von Richthofen, no século XIX, para denominar o circuito pelo qual transitavam os produto do Oriente para o Ocidente e vice-versa. Considerava-a também como uma via de trocas culturais importantes desde a Antigüidade. Sua visão da rota era eminentemente terrestre, no entanto, pois em sua época não se levava em conta a possibilidade destes contatos serem feitos por via marítima de forma confiável. Somente as descobertas mais recentes é que têm levado à contestação deste ponto de vista.

[2] Esta lista aparece no Hou Han Shu, LXXXVIII e no Wei lu.

[3] THORLEY, J. “The silk trade between China and Roman empire”., op. cit., p. 76-79.

[4] Síria.

[5] THORLEY, J., op. cit., p.75. Lembremos, porém, o caso de Gan Yin, que, colhendo informações acerca dos territórios ocidentais, foi enganado e/ou dissuadido de continuar sua jornada através da Pártia, tendo então que se contentar em voltar para o Turquestão, onde o general Ban Chao aguardava seu retorno.

[6] THORLEY, J., op. cit., p. 77 e também no Wei Lu.

[7] Plínio, o Velho, em sua História Natural, VIII, 196 acreditava que os tapetes bordados tinham sua origem em Pérgamo, mas é provável que se tenha equivocado, já que os métodos de produção dos mesmos parecem estar bem descritos em documentos mais antigos, como no Antigo Testamento: Êxodo, 28:6 e 39:3, segundo bem indica THORLEY, J., op. cit., p.77.

[8] Este tópico foi abordado em um texto meu intitulado Escravidão na China Antiga, redigido em Dezembro de 2000 para o curso de Pós-Graduação na UFF. Para saber mais sobre este assunto, pode-se consultar as obras de CH’U, T.T. Han Social Structure. Washington: Washington University Press, 1972 e de WILBUR, C.M. Slavery in China during the former Han Dynasty. Chicago: Field Museum of Natural History, 1943.

[9] Trimalquião, no Satiricon de Petrônio, apreciava os cogumelos vindos da Índia. Satiricon. Lisboa: Europa-América, 1973 p.41. Os romanos tinham algum conhecimento sobre a Índia, como indicam os relatos de Plínio, em História Natural VI, 23, além dos testemunhos dados por Ptolomeu; VII, VIII, 27 e do manual de navegação Périplo do Mar Eritreu LVI, como veremos a seguir. Cf. TCHERNIA, A., op. cit., p. 991- 1009; FREZOULS, E. “Quelque einsegnements du Periple du mer Eryhtrée”., op. cit., p. 311-319. Mas os indianos também conheciam os ocidentais, aos quais chamavam indistintamente de Yonacas ou Yavanas, termo este derivado da época de dominação grega nas regiões do norte da Índia (corruptela de jônios), tal como aparece no texto budista Milinda Panha, I, 2. Ver CIMINO, R. “The Yavanas”. op. cit., p. 64-74. Quanto aos produtos vindos da Índia, CIMINO, R. “Indian products exported to the west”., op. cit., p.80-83; “Roman products in the Indian emporia”., op. cit., p. 132-134 e WARMINGTON, E., op. cit., p. 145-260.

[10] GERNET, J., op. cit., p. 135.

[11] O fluxo comercial, intenso no norte o longo da Grande Muralha da China, era controlado diretamente pelo exército, que executava todas as funções possíveis, desde a segurança até a administração local. Isto fica bem demonstrado pelos documentos achados nas escavações da fronteira norte, e apresentados por LOEWE, M. Records of Han administration. Op. cit., p. 50-52; 60-63; 100-105; GERNET, J., op. cit., p.122-125.

[12] O já citado tratado Yantienlun (Normas do sal e do ferro) teria surgido provavelmente na época Qin (III a.C.), já com o intuito de regular várias atividades econômicas. Apesar da imprecisão na datação, sabemos que era largamente utilizado pelos imperadores da dinastia Han como referencial para administrar a economia.

[13] Shi ji, CXXIII e Han shu, XCVI.

[14] Apesar de ter sido bastante danificada no fim dos séculos I a.C. e III d.C. devido aos problemas políticos da dinastia Han, a capital foi reconstruída mais tarde pelos Tang (VII-IX d.C.) mantendo seu traçado original, do qual temos hoje conhecimento. MORTON, W., op. cit., p. 105-106.

[15] Liang shu, LIV.

[16] GERNET, J., op. cit., p.127.

[17] Hou Han shu, LXXXVI.

[18] Que seria conhecida pelos romanos como Sera metropolis, ou cidade da seda.

[19] WHEELER, M., op. cit., p.185-191.

[20] Ou Pathurva, Dangham, ou ainda em chinês Ban tou.

[21] Também conhecida por Hamadan. Tanto nesta nota como na anterior, resolvi optar pelo nome latino, já que os autores divergem sobre o nome que seria mais utilizado pelos partos para denominar suas capitais.

[22] ANQUETIL, J. op. cit., p.75-77.

[23] THORLEY, J., op. cit., p.71.

[24] MUSEUM OF SINKIANG UIGHUR AUTONOMOUS REGION The Silk road, fabrics from the Han to the Tang Dynasty. San Francisco, 1973.

[25] Cf. Notas 5 e 6.

[26] FINZI, C. Nos confins do mundo. Lisboa: Ed. 70, 1979. Foi um dos autores que buscou equilibrar-se entre as duas tendências (a História e realismo fantástico). Enquanto conduzia-se através do conhecimento de outros estudiosos, suas observações eram razoavelmente precisas; mas quando se decidia a fazer análises próprias, terminava por vezes em incorrer nos exageros e em hipótese históricas dificilmente comprováveis. Mas a questão parece ser realmente interessante, já que até Fernand Braudel dedicou-se ao estudo de algumas dessas idéias, como aparece no seu livro Memórias do Mediterrâneo. RJ: Multinova, 2000. O historiador e filósofo da História A. Toynbee (também conhecido por suas análises controvertidas) formulou, no entanto, uma observação interessante: “o realismo fantástico pode ser útil à História se utilizado para detectar brechas nos modelos construídos; mas não para responder-lhes”.

[27] No Song chu, cap. XCVII há uma citação sobre a vinda de negociantes e viajantes pelo mar pelo oceano do oeste (oceano índico), tanto de Da Qin (Roma) quanto de Tien Chu (Índia). É provável que a embaixada à que GERNET, J., op. cit., p.127 se refere, em Nanjing, também tenha vindo por mar.

[28] No Mekong, ainda no Vietnã, foram achadas moedas de Antonino Pio e Marco Aurélio em escavações arqueológicas nas áreas costeiras. Até 1979 (GERNET, J., op. cit., p.127), só haviam sido achadas poucas moedas; no entanto, depois disso foram encontrados outros materiais de origem ocidental que comprovariam este fluxo.

[29] Como Zheng He, almirante da dinastia Ming, que na época moderna explorou o Oceano Índico e Pacífico. Sobre o tema, um artigo interessante foi publicado por YAMAMOTO, T. “Atividades chinesas no Oceano Índico antes da chegada dos portugueses”. Diógenes. N.5. Brasília: UNB, 1983. p. 79-93.

[30] Historia Natural, VI Plínio chama o vento da monção de Hipalo; já no Periplus, LVII, Hipalo é o nome do grego que teria descoberto a monção. FINZI, C.., op. cit., p.183-185.

[31] REID, S. As Rotas da seda – caminhos marítimos. Lisboa: Estampa - UNESCO, 2000 p.15.

[32] Geografia, I, 11.

[33] MAZAHERY, A. “L’origine chinoise de la balance romaine”., op. cit., p. 833-851.